Leituras da Bel

Leia “O tempo que as alfazemas duram”, texto de Marília Lovatel

O tempo que as alfazemas duram
— Marília Lovatel

Arte de Antônio LaCarne

Estava cego há duas semanas, quando me trouxeram os lilases. Suponho que alfazemas. Suponho que lilás era a cor, algo na fronteira entre o azul e o roxo, novidade para mim. Um nome que cheirava a lilás, gentileza posta pela vizinha na mesa de cabeceira. O médico em visita domiciliar me explicou que no hospital eu recebera todos os cuidados, nada mais cabia à Medicina, restava deixar o tempo agir. Não guardei lembrança dos dias de internação. Dias de escuridão e da ausência absoluta de cores em que acordei, logo após o acidente. Mas me lembro do verde e do azul girando de mãos dadas numa ciranda veloz. Foi um mergulho na paisagem à janela. Um instante de distração, e eu fazia parte dela. Enquanto o mundo rodava, e eu não podia pará-lo, senti-me muito pequeno, tragado por uma das Nymphéas de Monet. Experimentei o sublime, belo e apavorante. Até a ciranda cessar. E o vermelho foi a última cor. Quente, viscosa. A vizinha – conhecida de cumprimentos de elevador – teve um surto de solidariedade. Compadeceu-se de minha situação. Disse-me que morava sozinha e se prontificou a me auxiliar até a chegada de um parente que se deslocava de uma cidade distante de onde moro. Vinha da outra ponta do país. E vinha por terra, pois a consideração que me devotava não era maior do que seu medo de avião. Ela me serviu um copo de leite. O gosto da brancura na boca, descendo pela garganta até o estômago. Imaginei o caminho do líquido morno nas entranhas. Estranha ocupação essa de redescobrir as cores. E aprender seus nomes. Eu, que nunca soubera distingui-las muito bem, com exceção da paleta primária, coloria meu vocabulário, exercitava os sinônimos que cabem a uma mesma cor, como bege, creme, marfim, areia, gelo, nude – cores táteis – e off white, expressão inglesa aprendida recentemente com a vizinha, ela que me falava sobre as cores. Eu via pelas palavras dela. Não sente nada? Nadinha? Não sinto nada do pescoço para baixo. Era como cuidar de um morto – ela devia pensar. Eu falava, tossia, respirava. No mais, era um morto, que não se mexia e não enxergava. A vizinha fizera a cópia da chave da porta da frente, para que pudesse entrar e administrar a medicação nos horários prescritos na receita. De dia ou de madrugada, não havia atrasos. E tanta dedicação mereceu, no mínimo, um esforço para recordar seu rosto. A amnésia sofrida no hospital podia tê-lo apagado da minha memória. Ou talvez fosse um rosto tão comum, tão sem beleza, que eu nunca notara. Não era bela. Com certeza não era. Ou eu me lembraria. Ou não. Tinha aquela hipótese da amnésia a considerar. Então, notei que a moça prestativa e gentil tinha uma voz até bonita. Era bonita a voz. Tinha um tom de dignidade assim bem respeitável. A voz combinava com a sua devoção a mim, que não passava de um vizinho enfermo, combinava com a sua conduta e com as suas virtudes. Sim, porque a uma mulher como aquela não faltariam virtudes. Bela alma. Bela, portanto. E, se eu não lembrava, era culpa daquela estranha amnésia. O cheiro da vizinha era bom. A sua chegada era sempre precedida de um perfume muito agradável, delicada fragrância, carícia ao olfato. Entrava no apartamento, antes que ela abrisse a porta. Quando o sentia, uma sensação de prazer, coração em festejo de batimentos. Passei a sonhar com ela. Acordava com a impressão de ela em meus braços. E aí me dava conta da realidade, da minha impotência. Se eu não me mexia, nada sentia, como poderia tê-la? Nem sequer podia vê-la. Mas eu a amava. Amava a sua voz, o seu cheiro e a sua presença. Amava a sua generosidade. Amava-a, porque cuidava de mim, me alimentava, me ensinava as cores. Precisava dela, porque a amava. Ou, amava-a, porque precisava dela. E se eu voltasse a sentir, a ver? E… Se não fosse bela? Preso a uma cama, preenchia o tempo com conjecturas, pensamentos loucos, conflitantes, que além de me roubarem a paz, em nada contribuíam para a minha recuperação. E se eu nunca me recuperasse? E se ela se cansasse e me deixasse? E se ela já tivesse alguém? Se ela era, de fato, bonita, certamente teria. Enchi-me de coragem para na visita seguinte lhe perguntar. Posso fazer uma pergunta pessoal? Pode. Você tem namorado? Isso faz diferença? Não. Você disse que eu podia perguntar. A evasiva me deixou desajeitado. Sim. Mas não disse que iria responder. Ela riu da minha surpresa. Uma risada bonita. Tinha senso de humor. Com ou sem namorado, era uma mulher bela. E era muito boa para mim. Se era boa, era bela. Eu lera em algum lugar que a beleza estava ligada ao ajuizamento livre, desinteressado. “Belo é o que apraz universalmente sem conceito.” Meu juízo sobre a moça não era desinteressado. Ela era boa para mim. Mas nem por isso seria bela para os outros. Talvez fosse bela só para mim. Talvez, se pudesse vê-la, nem para mim. Lembrei-me do mito de Eros e Psiquê, do matrimônio consumado no escuro e desfeito à luz de uma vela. A beleza da jovem, que desviava a atenção dos homens que já não veneravam Afrodite e lhe esvaziaram os altares, foi punida com uma paixão maldita. Eros, filho de Afrodite, deveria lançar a maldição em que Psiquê amaria um monstro. Mas, ao encontrá-la adormecida, Eros se atrapalhou e acabou ele próprio apaixonado. Para não desobedecer à mãe, contudo, escondeu a jovem num palácio espetacular, onde todos os desejos dela eram prontamente atendidos. E ali viveram em segredo tão absoluto, que nem mesmo a esposa conhecia o rosto do marido. Ele advertira que a jovem nada fizesse, que não houvesse uma única tentativa para vê-lo, que ela respeitasse seus motivos para não se revelar. Assim, ela provaria que seu amor era maior do que qualquer outro impulso. E, em retribuição à satisfação dos desejos dela, pedia somente que fosse amado e não temido ou adorado. Após uma visita à família dela, a jovem foi convencida pelas irmãs invejosas de que corria grande perigo, casada provavelmente com um monstro que na noite se escondia. Vinha nas horas escuras e antes de amanhecer partia. E, na madrugada, com o coração tomado de curiosidade, ela acendeu a vela para ver quem lhe dedicava amor tão maravilhoso. Extasiada com a face do marido, a quem jurara amar não pela beleza, dessa vez o descuido foi dela que não percebeu a gota de cera que caiu no peito do esposo, acordado nesse susto. Decepção. A promessa fora quebrada. Eros abandona Psiquê, que passa a vagar sozinha pelo mundo, experimentando os sofrimentos impostos por Afrodite. E muito embora a jovem lute para recuperar seu amor perdido, sucumbe à morte, que a envolve nos tecidos de um sono profundo. Comovido, Eros recorre a Zeus e lhe implora misericórdia para um amor tão infeliz. E Zeus concede a Eros que use uma de suas flechas para despertar a amada e transformá-la em imortal. Eros leva Psiquê para morar no Olimpo e nunca mais se separam na representação que une o amor e a alma. Esse mito em torno da beleza sempre me intrigou. A beleza ingênua de Psiquê, bênção e maldição. A beleza estética de Afrodite, a ocultar uma personalidade egocêntrica e vingativa. A beleza de Eros inseguro em relação à genuinidade do amor que lhe dedicavam. Enquanto recordava a história, eu me convencia a amar minha vizinha na escuridão e na paralisia. Como se eu também fosse um espírito aprisionado no mármore da escultura de minha preferência no Museu do Louvre, Eros e Psiquê no instante que antecede o beijo. Mas fui surpreendido com a dor de um beliscão na coxa direita. Uma reação muscular, um espasmo, provavelmente meu corpo lutando para acordar do torpor. Aquilo me encheu de alegria. E se fosse, de fato, um beliscão? A felicidade de voltar a sentir interrompida. A perplexidade da dúvida de que alguém me beliscara. Um formigamento nas extremidades era a confirmação de que, aos poucos, eu retornava. Mas o beliscão latejando me alertava sobre o sadismo de alguém capaz de maltratar quem não podia se defender. Alguém em quem eu confiava e que tinha acesso à minha casa e ao meu corpo. Tem gente pra tudo nessa vida. Mas pensar que a vizinha seria capaz. Ou o médico, que fora tão atencioso – ele fizera questão das visitas em casa e nem cobrara nada por isso – pensar nessas possibilidades era ainda pior que a dor do beliscão. Concentrei-me na mancha roxa. Devia ser roxa. Roxo é a cor de um hematoma. Imaginei se era única, se haveria outras. Há quanto tempo isso vinha acontecendo. Resolvi não divulgar os meus progressos sensitivos nem ao médico nem à vizinha na visita seguinte. Ainda não sente nada? Nadinha. Quer um banho, aqui mesmo na cama? Não precisa ter vergonha. Já fiz antes. Decidi ver – força de expressão – até onde ela iria. Ouvi o ruído da esponja sendo apertada para liberar o excesso de água na bacia. Invadiu minhas narinas o cheiro ardido do sabonete líquido. Um cheiro laranja. Ouvi o som da embalagem plástica sendo contraída sobre a esponja que ela começou a deslizar no meu corpo. Primeiro percorreu os braços dos ombros até as mãos. Voltou ao pescoço. Passou a esponja de banho gentilmente no meu rosto. Depois se dedicou às pernas. Na coxa direita, desviou da região beliscada. Ela sabia. Sabia que eu era uma vítima. Ela era o algoz. Talvez não. É provável que eu estivesse cheio de hematomas, desde o acidente. Uns a mais nem se notaria. Se fosse o médico, saberia disfarçar. Beliscaria onde já estava roxo. Quanto mais eu pensava, mais absurdos me ocorriam. Controlei-me para não revelar as cócegas que senti quando a esponja chegou aos meus pés. Ela continuava. Lentamente, me lavou o peito. A barriga. Com um cotonete, limpou as dobras do umbigo. Não tinha um método. A sequência não era lógica. Então, largou a esponja e manipulou o membro adormecido que acordou, liberando dourados, prateados, cores metálicas dançaram em meus olhos. O que é isso?! Você me enganou, disse que não sentia nada! Protestos de indignação. Ela me xingou. Gritou comigo como se eu tivesse ficado surdo. Eu estava cego. Melhor até que estivesse surdo, para não ouvir a lista de palavrões dirigidos a mim. Concluí que ela estaria vermelha. De vergonha. De raiva. Ou dos dois sentimentos juntos, amalgamados em rubra fusão. A cor do sangue pulsando nos vasos capilares, o vermelho corando as faces. Vermelho, a última cor de que me lembrava bem. Meus dedos alcançaram a toalha tateando o colchão e, em seguida, me sentei na beirada da cama, os pés firmes no chão. As mãos sobre os joelhos. E ri sozinho. Feliz por estar de volta. Nem a beleza que desmoronara atrapalhava a minha alegria. Foi nessa hora que voltei a enxergar. E a primeira imagem que distingui no borrão foi o rosto dela, seus olhos arregalados de espanto e o vaso com as alfazemas murchas, desbotadas de sua cor, que ela levava embora. A segunda imagem foi também um rosto. Demorei muito? O tempo que as alfazemas duram.

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Marília Lovatel

Marília Lovatel cursou letras na Uece e é mestre em literatura pela UFC. É professora da Pós-Graduação em Escrita Literária no Centro Universitário Farias Brito. No intervalo de seis anos publicou dez livros infanto-juvenis, títulos apresentados por Rachel de Queiroz, Ignácio de Loyola Brandão, Ana Miranda, Antônio Torres e Socorro Acioli. Em 2019, lançou um livro de poemas e aforismos em parceria com Marcelo Peloggio. Duas vezes integrou o Catálogo de Bolonha e foi finalista do Prêmio Jabuti 2017.

Antônio LaCarne

É cearense, formado em Letras Inglês pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Autor de Elefante-Rei: Poemas B (CBJE, 2009), Salão Chinês (Patuá, 2014); Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (AR Publisher, 2018). Participou das antologias “A polêmica vida do amor” (Oito e meio, 2011) “A nossos pés” (7Letras, 2017), “Golpe: antologia-manifesto” (Nosotros Editorial, 2017) e “Rotatórias” (Galeria Sem Título Arte, 2018).

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