Leituras da Bel

“Por que eu não vou à Paris com você”

Por que eu não vou à Paris com você
— Por Gisela Gold

Foto de Isabel Costa

Porque eu tenho que dizer “claro, meu bem, vamos à Paris. Vamos planejar”. Quem quer garantias casa com um plano de marketing. Eu não funciono assim. Você conta sua vida falando sua agenda do dia cumprida e comprida. Eu digo de mim com lembranças de quando eu era doce e deixava áudios intermináveis, lembrando doçuras do tempo em que as pessoas se demoravam nas conversas. Você continua: “Mas você nem imagina nada assim da gente em Paris?” Eu me calo e digo: “minha imaginação está descobrindo como pode juntar num mesmo texto o medo, o agressivo, a falta de amor e a demora nas declarações”. Você diz do feminismo, das mulheres que empoderam mulheres. Eu digo pra você me encontrar no bar após a passeata. Você se toca com as mulheres fortes, eu continuo tocada pela fragilidade enorme em cada grito de um agressivo, no fundo perdido e acuado que eu grito também. Você é do sonho, do amanhã. Eu não sou budista nem faço yoga, mas preciso viver do aqui e agora. Eu estou no livro que lemos juntas, naquela hora eu estou ali. Você me pergunta “e se for à Argentina, você iria?” Eu digo que agora estou no livro que estamos lendo. Que pode parecer repetitivo, mas é nosso, é próprio, nós inventamos de ler o mesmo livro de manhã e de noite, que me acalma, que eu respiro e me sinto amada assim. Você diz sua agenda novamente do dia. Eu não conto o que fiz, mas de repente numa hora descabida, mando um trecho emocionado sobre um passo que um paciente deu que escutei ontem e ainda escuto. Você diz que está com saudades de mim. Eu digo que estou com saudades de quem eu fui e que a melhor hora do dia é quando lemos. Você diz “eu te amo”, eu mando mensagem pra sua irmã que você adora pedindo pra olhar pra você. E quando a gente inventa de colocar tudo numa planilha, pra ver o resultado e decidir nossas vidas, o telefone é desligado com a certeza de que os dados não batem, os algoritmos não fazem par. Os cinco minutos seguintes não refazem as contas, mas o coração entra numa agonia tão grande. E quem disse que planilha entende de agonia? Quando vejo ligo novamente, quatro minutos e meio depois: “Eu não sei dizer sobre Paris; eu sou assim: sem garantias. A única certeza que tenho é que dói demais ficar sem sua voz por perto. Vamos ler?”

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Gisela Gold

40 na carteira. Às vezes 8, outras 80. É boa de briga. Ama divulgar gente boa e projeto bom, olhar e rascunhar crônicas em guardanapo de bar. É uma viciada em Mate Leão e informalidade, que flertou com a Psicanálise, o que abriu seu olhar para receber a diferença. Cometeu um livro de nome “Óbvio”, em 2001, e “Roupa de Poema” em parceria com um amigo, em 2010. “Alguém”, editado pela Quintal Edições, em 2019, a lança novamente ao mundo, aos vários mundos onde há a certeza: precisa escrever para não enlouquecer.

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