Leituras da Bel

“Atestado prescrito do amor futuro ou antologia da solidão”, de Marília Lovatel

Atestado prescrito do amor futuro ou antologia da solidão
— Por Marília Lovatel

Foto: Tatiana Fortes/O POVO

Disseste-me que atestado prescrito do amor futuro ou antologia da solidão são títulos perfeitos para qualquer história de amor. Porque todas carecem de um batismo para fugir ao lugar comum, o comum lugar que nos faz imaginá-la única e não mais uma, como tantas outras. Enquanto se intitulam as contradições de uma narrativa de passos descalços que se alternam em chão de veludo e de pedriscos, desconfio de quem se diz amante. Como saber o quanto se ama no amor vigente se o tempo é sempre pouco e tudo tão urgente, que quase impossibilita a exatidão sobre o que se sente, no momento em que se sente? Há noites silenciosas. E tempos de ventania. A paralisia da espera antecede o movimento de escalar a montanha no primeiro dia do solstício de inverno para ver uma sereia prateada. Imagem tão verossímil quanto tudo que supomos saber ao enveredar pelas searas do querer. Paragens do indubitável desconhecimento, que permanecerá enevoado, até que o hoje seja ontem no encontro futuro. Nesse amanhã, a lembrança do amor passado, quando estivemos lado a lado, e nos pensamos sozinhos, será nítida. Só então nos reconheceremos. Não se pode ver bem o que está muito perto. É preciso olhar com afastamento. Saber-se amante na presbiopia do sentimento. E nem a distância ou a imprecisão da memória e suas inventadas emendas impedirão que atestemos – fora da validade, provavelmente – a certeza inequívoca: fomos o grande amor das nossas vidas.

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Marília Lovatel

Cursou letras na UECE e é mestre em literatura pela UFC. É professora da Pós-Graduação em Escrita Literária no Centro Universitário Farias Brito. No intervalo de 6 anos publicou 10 livros infanto-juvenis, títulos apresentados por Rachel de Queiroz, Ignácio de Loyola Brandão, Ana Miranda, Antônio Torres e Socorro Acioli. Em 2019, lançou um livro de poemas e aforismos em parceria com Marcelo Peloggio. Duas vezes integrou o Catálogo de Bolonha e foi finalista do Prêmio Jabuti 2017.

 

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