Plínio Bortolotti

As fotos de Berlusconi e a aula de jornalismo do El País

O jornal espanhol El País divulgou em sua edição de hoje fotos de uma casa do primeiro ministro da Itália, Silvio Berlusconi,  na qual homens e mulheres transitam nus e seminus. As fotos foram feitas pelo fotógrafo italiano Antonello Zappadu em 2008, e confiscadas por ordem de promotores romanos na semana passada. 

O El País não informa como teve acesso às fotos. Em  uma delas um homem aparece completamente nu, em estado de, digamos assim, completa excitação. Devido ao teor das fotografias o jornal justificou, em editorial, o motivo que o levou a publicá-las, já que mostra uma área reservada da casa do primeiro ministro o que, à primeira vista, seria um espaço de privacidade. [O rosto de todas as pessoas aparecem borrados, à exceção de Berlusconi.]

As perguntas que o El País responde em seu editorial são: até que ponto deve ser respeitada a privacidade de um governante? É lícito que um governante use recursos públicos para atividades privadas? Qual é o momento em que a vida privada de um governante passa a influir negativamente na política pública?

Para o El país: 1. Berlusconi perdeu o direito à privacidade, pois a sua vida íntima está prejudicando o governo; 2. Ele vem usando recursos públicos para cobrir despesas de suas atividades privadas; 3.  O primeiro ministro italiano usa o espaço da política como uma “extensão de suas relações de amizade”; 4. O modo truculento de agir de Berlusconi põe em risco a democracia, o que é “motivo de preocupação para os italianos e todos os europeus”

Portanto, o jornal resolveu publicar as fotos que “deixam nu” a Berlusconi. O  editorial do El País [5/6/2009] serve como uma aula de jornalismo. Segue abaixo, com as desculpas pela tradução.

«Berlusconi está nu

Que não se engane Silvio Berlusconi: é a imprensa democrática que respeita a sua privacidade e que não deixa de pô-la em causa. Porque a publicação das fotografias de suas festas privadas não tem nenhum objetivo de fazer juízo de sua moral como cidadão, mas tem sim o propósito de demonstrar que ele, como primeiro ministro, está transformando o espaço da política democrática em uma simples extensão de suas relações de amizade e de sua diversão.

É isso exatamente que, segundo suas próprias declarações, tem feito ao elaborar sucessivas listas eleitorais de seu partido, incluindo quando precisa atribuir responsabilidade de governo. Outro tanto cabe dizer do uso que as facilidades que o Estado põe à disposição do primeiro ministro para que possa cumprir suas responsabilidades. Transportar convidados a festas particulares não é tarefa dos aviões oficiais, pouco importar que se trate de bailarinas ou apresentadoras de televisão. O fato de que o primeiro ministro fez aprovar em 2008 uma lei que abria os voos do Estado a qualquer acompanhante, não lhe dá uma cobertura jurídica, e sim evidencia um flagrante abuso de poder.

A imprensa italiana tem denunciado o escândalo e o primeiro ministro não tem se contentado em unicamente negar ou simplificar os fatos, apresentando-se com um paternal protetor de moças, das quais assegura apreciar os talentos artísticos e políticos. Recorrendo a confusão entre os interesses públicos e privados, Berlusconi vem tentando, ainda, a desacreditar cidadãos que, como sua própria mulher, estavam em condições de confirmar as denúncias. Esse gênero de pressões são a prova de que, sob Berlusconi, a liberdade de expressão se encontra ameaçada. O fotógrafo que captou essas imagens [em agosto do ano passado] teve a totalidade de seu arquivo confiscado pela Justiça.

Com este escândalo, Berlusconi fica nu, não como cidadão, mas como político. Se até agora as suas conversas vinham sendo tomadas como piada, agora existem novas e poderosas razões para advertir que o primeiro ministro está pondo em risco o futuro da Itália como Estado de Direito. E uma Itália que desmorone, do mesmo modo como está sendo arrastado Berlusconi, não é só motivo de preocupação para os italianos e para todos os europeus.»

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