Plínio Bortolotti

Angelina fala de “Homens de bens”

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Segunda parte da postagem “Como trabalhar em equipe”

Angelina Nunes, editora do jornal O Globo, conta como produziu a reportagem “Homens de bens”. A reportagem, Prêmio Esso de 2005. A equipe do jornal O Globo investigou os bens acumulados pelos deputados do Rio no período de 1996 a 2001. A reportagem revelou que 27 parlamentares tiveram aumento de mais de 100% em seus patrimônios. O levantamento mostrou que quase 80% dos parlamentares que forneceram ao Tribunal Regional Eleitoral pelo menos duas declarações de renda no período, tiveram algum crescimento nos bens.

Como conseqüência, a Receita Federal passou a investigar o aumento de renda dos deputados. Em vários estados, jornais fizeram pautas parecidas.

A editora afirma que, para fazer uma boa investigação, é preciso “tempo dinheiro e qualificação de repórteres. Só empolgação não conta”. Diz que fazer levantamento de dados é “muito chato”, mas que, sem isso, não se fundamenta a reportagem.

Para Angelina, qualquer repórter deve ser capaz – e a ele dever ser dado o direito – de fazer reportagem investigativa. “Não é só um repórter ‘superespecial’ que faz isso”.

Ela diz que no O Globo há uma equipe específica de repórteres especiais. Segundo ela explica, dependendo da pauta, forma-se a equipe mais adequada para levantar o assunto, de acordo com o perfil de cada jornalista.

Segundo Angelina, hoje o repórter precisa saber mais do que “reproduzir relises”. Como tudo está na internet  – discurso de autoridades, etc. – as pessoas podem pegar essas informações na fonte. Portanto, é preciso que o repórter veja “algo a mais”.

Por que a matéria deu certo: trabalho de equipe, reuniões diárias, persistência. Diz que é difícil manter uma equipe motivada por quatro meses, tempo que durou a apuração.

Em seguida, Angelina fala da reportagem “Os brasileiros que ainda vivem na ditadura”. Disse que o planejamento foi feito em 2006 e a matéria começou a ser apurada em 2007.

A reportagem mostra que moradores de favelas no Rio de Janeiro têm direitos mais básicos desrespeitados. Se alguém mora em uma comunidade contrária ao Comando Vermelho, por exemplo, não pode usar roupa dessa cor; há “toque de recolher”, etc. A matéria mostra, inclusive que, no morro, a tortura não acabou: continua a ser praticada impunemente por traficantes e milicianos.

Diz que o título da matéria principal – “Democracia não sobe o morro” – foi uma criação conjunta. O insight inicial surgiu de um repórter que nem havia participado da apuração. “Ele estava passando na hora, ouviu a gente conversando e disse: ‘a democracia não sobe a favela’”. Outro repórter completou: “Melhor é ‘A democracia não sobe o morro’”.

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