Plínio Bortolotti

Graciliano Ramos, Joel Silveira, Mário de Andrade e os tostões da literatura

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Eu vou contar uma coisa para vocês. Para mim, não existe melhor escritor brasileiro do que Graciliano Ramos. Podem pôr de balaiada qualquer outro, incluindo Guimarães Rosa [Machado de Assis, este eu vou ficar quieto, pois estava na melhor das considerações do mestre Graça. De Rosa, ele votou contra o seu livro Sagarana em um concurso; depois se tornaram amigos – e Graciliano só tinha palavras gentis para Rosa.]

Sempre volto a Graciliano: inclusive porque ele tem muitas lições a dar a jornalistas – de como se deve escrever um texto. Eu tento ser aluno aplicado, mas não lhe serviria nem de escabelo.

Tenho-lhe a coleção completa.

Veio-me Graciliano devido a duas postagens recentes neste blog.

Sou mais Joel Silveira [em comparação com Gay Talese] e
Vale Cultura, Dimenstein e a elite cultivada

Pois fui me lembrar do mestre Graça por um texto dele, de 1939, em que ela fala justamente de Joel Silveira [só elogios] e sobre Mário de Andrade, que acusava “mau gosto” na literatura brasileira. Vejam diretamente na lavra de Graciliano:

Os tostões do sr. Mário de Andrade
Graciliano Ramos

O sr. Mário de Andrade, há algum tempo, lamentando o mau gosto e a imperícia que atualmente reinam e desembestam na literatura nacional, utilizou uma imagem espirituosa e monetária: dividiu os nossos escritores em duas classes – a dos contos de réis, pelo menos centenas de mil-réis, onde se metem alguns indivíduos que arrumam idéias com desembaraço, e a dos tostões, gavetinha que encerra criaturas de munheca emperrada e escasso pensamento. O sr. Joel Silveira, sergipano bilioso, incluiu-se modestamente na segunda categoria, tomou a defesa do troco miúdo, dos níqueis literários que enchem revistas, jornais, cafés, livrarias, cômodos ordinários em pensões do Catete.

Enquanto o autor de Macunaíma exige acatamento à tradição e à regra, o jovem contista de Onda Raivosa se mostra desabusado e rebelde: não chega a atacar a cultura, mas refere-se a ela com tristeza, julga-a remota e inacessível ao homem comum.

Há uma técnica na arte, diz o sr. Mário de Andre. Romain Rolland foi mais longe: afirmou, creio eu, que a arte é uma técnica. O moço nortista repele semelhantes exigências. Vivemos arrasados, o numerário foge, há dívidas abundantes e falta-nos vagar para os cortes, as emendas necessárias. Não faz mal que a produção artística saia capenga.

O que nos desagrada nessa questão, hoje morta, é notar que o crítico paulista, colando em alguns escritores etiquetas com preços muito elevados e rebaixando em demasia o valor de outros, vai tornar antipática a boa causa que defende, prepara terreno para o paradoxo sustentado pelo sr. Joel Silveira. E teremos então uma demagogia louca. “Somos tostões, perfeitamente, um considerável número de tostões. Some tudo isso e verão a quantia grossa que representamos.”

Não há nada mais falso. Mas os indivíduos que se imaginam com boa cotação no mercado naturalmente se encolhem, silenciosos por vaidade ou por não quererem molestar os níqueis comparando-se a eles. E as moedinhas devem andar rolando por aí, satisfeitas, areadas, brilhantes, pensando mais ou menos assim: “Joel Silveira é dos nossos, inteiramente igual a qualquer um de nós. Ignorante que faz medo, nunca leu um livro. Conversa mal, não vai além dessas pilhérias que a gente larga nos cafés. Mora numa casa cheia de pulgas, é amarelo como flor de algodão e tem a fala arrastada. Pobrezinho, com certeza come pouco ou não come. Pensa pouco ou não pensa. Um tostão como eu, como tu, como aquele. Podemos supor que Joel Silveira valha mais de um tostão? Não podemos, razoavelmente, porque ele chegou perto de nós e gritou: Eu sou um tostão. Entretanto Joel Silveira inventa uns negócios que sujeitos entendidos elogiam. Ora se Joel, tão arrastado, tão amarelo, tão barato, faz contos e crônicas interessantes, por que não faremos nós coisa igual? Mexamo-nos, fundemos sociedade e pinguemos em revistas os nossos cinco vinténs na literatura.”

Um desastre. É necessário pôr fim a essa confusão, que nos pode render muito prejuízo. Já existe por aí uma quantidade enorme de livros ruins. E o sr. Joel Silveira não é um tostão, nunca foi. Escreveu um excelente artigo para demonstrar que não sabe escrever.

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