Plínio Bortolotti

Livro sobre mídia denuncia uma “ditadura” para pedir outra

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Altamiro Borges, jornalista, secretário de Comunicação do PCdoB, acaba de lançar um livro cujo título é “A ditadura da mídia” [Editora Anita Garibaldi]. Nele, defende a tese expressa no título e afirma, citando o teórico e militante marxista, o italiano Antonio Gramsci, que “na crise dos partidos burgueses [com os quais, por sinal, o PCdoB se alia sem pudores] a mídia transforma-se num verdadeiro ‘partido do capital’”.

O livro levanta algumas questões corretas e que precisam ser debatidas e/ou enfrentadas: a concentração da propriedade em nível nacional e intencional; a necessidade de se estabelecer novo marco regulatório para as licenças para radiodifusão [concessões de rádio e TV] no Brasil; e o questionamento a que cada vez mais a imprensa vem sendo submetida pela sociedade, principalmente com o advento da internet.

Quanto à concentração da mídia o PCdoB não está sozinho em sua preocupação. Parlamentos de vários países do mundo, a União Européia e até o megainvestidor George Soros preocupam-se com o perigo que é para a democracia a concentração da propriedade dos meios de comunicação em poucas mãos. [Obviamente, o raciocínio é o da concorrência capitalista.]

Sobre os novos marcos regulatórios para a radiodifusão, tirante os diretamente interessados, não há oposição cerrada dos demais meios de comunicação. Em editorial na edição de 25/8/2009, o “conservador” Estado de S. Paulo escreve o seguinte: “Não restam dúvidas quanto à necessidade de que os antigos vícios da radiodifusão, como o oligopólio e a crescente vinculação entre interesses religiosos e estações de rádio e TV, além da instrumentalização dos meios públicos, sejam rapidamente superados”. É fato que ataca outras teses caras à esquerda, mas não há de se querer tudo dos “inimigos de classe”.

Um dos exemplos que Borges usa para exemplificar a “ditadura da mídia” foi a atuação da imprensa americana na invasão do Iraque. De fato, por qualquer ângulo que se olhe, o comportamento dos meios de comunicação americanos foi vergonhoso. Mas não se pode esquece que uma grande parte dos meios de comunicação de outros países agiram de maneira inversa: questionando severamente as razões apresentadas pelo governo dos Estados Unidos para justificar a invasão ao Iraque.

Vendo desse modo, podemos dizer que a mídia, fora Estados Unidos, ajudou a formar uma opinião refratária à invasão do Iraque na maioria dos países do mundo.

Mas, o que há de mais contraditório é a defesa que Borges faz de sua da tese central de que a mídia é um “partido político”.

Para efeito de argumentação, vamos aceitar que autor do livro esteja certo. Logo, teríamos de denunciar e rechaçar qualquer tentativa de transformar a mídia em partido político, já que isso é um mal, deletério para os cidadãos e para a democracia.

Mas eis, que na página 117 Borges volta a citar Gramsci de modo glorificante para afirmar: “Na sua rica elaboração sobre o papel dos intelectuais e a luta pela hegemonia, ele [Antonio Gramsci] chega a afirmar que, em momentos de crise, o jornal pode funcionar como partido político, ajudando a desnudar a ideologia dominante e a construir a ação contra-hegemônica”.

Ué, então Altamiro Borges não é contra que a mídia seja um “partido político”; ele é contra apenas porque não é partido dele que opera desse modo. Podemos supor que, caso o PCdoB tome o poder, a mídia será – do mesmo modo que ele acha que é hoje -, também um “partido político”, só que agora controlado pelo governo, do mesmo modo que era na União Soviética?

Se assim for, eu digo: não, não, não, muito obrigado.

Do jeito que está, pelo menos, Borges pode escrever o que pensa e eu também; na outra versão, duvido que pudéssemos expor livremente as nossas opiniões.

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