Plínio Bortolotti

Bob Fernandes dá uma pequena [porém boa] lição de jornalismo

Coordeno, no O POVO, um grupo de estudantes no projeto Novos Talentos. São oito alunos de faculdades de jornalismo de Fortaleza que passam três meses no jornal aprendendo os meandros da profissão.

Repassei-lhes, recentemente, uma entrevista feita pelo editor do Terra Magazine, Bob Fernandes, que acompanhou a recente viagem do presidente Lula, que foi “vistoriar” as obras da transposição do rio São Francisco.

A entrevista foi com  Joana Camandaroba, uma professora aposentada, de 95 anos – considerada a matriarca de Barra [BA].

Mostrei-lhes como exemplo do repórter que consegue “olhar para o outro lado” enquanto todos olham para a mesma direção.

Fazendo isso, Bob Fernandes descobriu uma personagem pra lá de interessante, a dona Joana, que revelou muito mais da política do que o discurso dos políticos.

Pois bem, sugeri-lhes, aos Novos Talentos, que fizessem algumas perguntas ao editor do Terra Magazine e procurassem saber o que estava escrito na págia 105 do livro “Barra, um retrato do Brasil”, que ela entregou ao presidente Lula, pedindo-lhe que lesse a dita página.

Leia no Terra Magazine a entrevista com dona Joana. Abaixo, as respostas de Bob Fernandes ao estudante André Teixeira Bezerra.

Dona Joana e Lula, em foto de Ricardo Stuckert

Dona Joana Camandaroba e Lula, em foto de Ricardo Stuckert





André – Você leu o livro da personagem? Qual o conteúdo da página 105?
Bob Fernandes –
Não, não li e nem daria tempo para fazê-lo. Na entrevista ela diz qual seria o assunto a partir da página 105. Se bem me lembro – e tô no sufoco não vou poder consultar agora, mas você checa lá – era sobre a língua portuguesa, usos e costumes etcterea.

Quando você “descobriu” a Dona Joana…
Na hora nós jornalistas não vimos a cena, estávamos todos num cercadinho à beira do rio e o encontro se deu num outro lugar. Procurei saber o que havia acontecido no lugar onde não estivemos. Soube que ele havia se encontrado com uma senhora de 95 anos, a matriarca da cidade. Fui, claro, fuçar quem era , o que havia rolado e daí cheguei nela.

…e quando percebeu que ela seria uma excelente personagem?
Quando percebi? Em dois tempos; primeiro, quando soube que ele havia encontrado uma senhora de 95 anos, que havia lhe dado um livro e que era a matriarca da Barra. Dito isso, fui atrás dela. Quando começou a falar, ficou óbvio a dimensão da personagem.
Por fim, como a foto deles não estava na relação de fotos do site do Stuckert, fotógrafo da presidencia, pedi a Thais Bilenky que trabalha no Terra Magazine em São Paulo que ligasse pra ele – que seguia com Lula para o agreste de PE onde dormiriam- e perguntasse. Eu já estava, então,entrando num aviãozinho e voando para salvador. Ela faloucom o fotógrafo e em seguida falei também. Lula pedira a ele que fotograsse ele e D. Joana pra mandar a foto pra ela depois. Pedimos e ele nos enviou a foto.

[Em seguida trecho da página 105 do Livro “Barra, um retrato do Brasil” – de 1997 – , que dona Joana Camandaroba escreveu com o padre Arlindo Itacir Battistel. Pesquisa do estudante André.]

«A língua é algo que evolui. Postulados da gramática portuguesa de hoje serão considerados “formas arcaicas” nos próximos séculos.

Por outra, todos os dias somos obrigados a assimilar formas lingüísticas inglesas nos Meios de Comunicação Social, nos produtos de consumo, propagandas, informática.

Se aceitamos a dura e fria língua inglesa, por que não aceitamos o doce e poético linguajar sertanejo?

Os sertanejos imprimem na sua linguajem sentimentos, afetos, valores que os ingleses ou norte-americanos são incapazes de expressar, porque suas vivências, interesses e afetos são radicalmente outros.

Portanto se você sentir um leve mal-estar ao ler entrevista escrita conforme a pronúncia do patriarca dos pequenos sertanejos, lembre-se de que seus descendentes que estão vivendo em Brasília, São Paulo, Salvador, sentirão uma alegria imensa, uma satisfação ímpar, um sadio orgulho ao ver seu linguajar escrito e respeitado. Nesta linguagem eles recordarão a infância, o amor do painho, da mainha, a liberdade plena do sertão, o profundo convívio com a natureza, a luta renhida pela sobrevivência, as histórias ouvidas nos sertões nas longas noites de luar, sentirão enfim uma tal alegria que nenhuma outra língua lhes poderá suscitar.

E você que é culto, aceita e aprende o inglês para melhor comerciar, por que não aprende o linguajar sertanejo que lhe ensina o bem viver?»

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