Plínio Bortolotti

Canoa Quebrada: de paraíso a inferno

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Tropa de Choque da Polícia Militar na rua principal de Canoa Quebrada: foram necessários 60 policiais e um helicóptero para conter conflito entre bugueiros e turistas de "off road"

Tropa de Choque da Polícia Militar na rua principal de Canoa Quebrada: foram necessários 50 policiais e um helicóptero para conter conflito entre bugueiros e turistas

O POVO publica na edição hoje matéria de grave incidente acontecido em Canoa Quebrada [Aracati, CE], a praia que, pelo menos até durante a década de 1980, foi refúgio de velhos hippies e hippies tardios, bichos-grilo e outros tipos da mesma espécie, que gostavam de andar na contramão.

Se não me engano, a “descoberta” de Canoa deu-se depois que o hoje deputado Fernando Gabeira voltou de seu exílio europeu e promoveu a praia da lua e da estrela a status de um novo paraíso.

Mas como tudo o que é bom dura pouco, hoje Canoa é mais uma vitrina da burguesia endinheirada, que chama a sua antes modesta rua principal de “Broadoway”, ainda que seu nome oficial seja Dragão do Mar, como ficou conhecido Francisco José do Nascimento – lá nascido – o mulato jangadeiro que enfrentou o tráfico [e o tráfego] de negros sob a consigna: “No porto do Ceará não se embarcam mais escravos”.

Pois bem, bugueiros e praticantes de “off roads” – com seus carrões 4 x 4 e quadriciclos – que tiram o sossego de qualquer cristão que queira descansar nas areias da praia – se enfrentaram, houve feridos e, por pouco, a desgraça não foi maior.

Para acabar com a briga foi preciso mobilizar 50 policiais de seis cidades vizinhas e também um helicóptero.

Impunidade

A exemplo da seção que aqui mantenho “Fortaleza, terra de ninguém”, a desordem parece estar avançando célere por todos os municípios cearenses, incluindo as praias.

Se o camarada deixa de ir à Praia do Futuro para não ser constrangido pela ocupação desordenada dos barraqueiros e nem pela constância dos ambulantes que lhe abordam a cada segundo – e opta por algum lugar mais distante -, corre o risco de ser atropelado por um bugue, um “4×4” ou por um quadriciclo, os novos donos das areias.

E ai de quem ousa se queixar ou pelo menos olhar feio para alguns desses monstros de metal. A maioria desses sujeitos que anda em um veículo desses grandões, acha que comprou junto um passe para a impunidade.

E nesses carros ou quadriciclo é bastante comum ver crianças ou adolescentes dirigindo-os; os “papais” e “mamães” devem achar uma gracinha a precocidade dos filhos, que vão se transformando em novos monstrinhos.

Segundo o jornal Diário do Nordeste, uma das versões para o conflito é que “um adulto e um adolescente de 12 anos resolveram dar um passeio de quadriciclo nas dunas” [grifei]. Nesse momento um representante dos bugueiros [profissionais que passeiam com turistas também pelas dunas] teria abordado os dois, alertado para o perigo, etc.

E por que isso acontece?

Tirante as demonstrações de má-educação e falta de respeito com o próximo, acontece porque as “autoridades” preferem se omitir. Eles têm medo de perder votos pondo um pouco de ordem na bagunça.

Em matéria publicada no sábado, O POVO mostrou que dos 184 municípios cearenses, 136 ainda não municipalizaram o trânsito. As cidades viram uma verdadeira terra de ninguém; ou melhor propriedade dos carros que fazem o que querem e motociclistas que trafegam sem o equipamento básico de segurança: o capacete. O resultado é o aumento de vítimas atendidas no hospital IJF, em Fortaleza.

Fiscalizar o trânsito tira votos – e os prefeitos estão mais preocupados com a próxima eleição do que com a administração da cidade. A propósito, uma boa parte dos prefeitos nem mesmo mora no município que administra. Uma das principais providências de muitos prefeitos é comprar uma camioneta Hilux para ter mais conforto para visitar de vez em quando a cidade que “administra”.

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