Plínio Bortolotti

Guantânamo: depois de passar 5 anos preso, torturado, iemenita é inocentado

Cuba vem sendo criticada severamente por manter prisioneiros de consciência e não permitir a liberdade de imprensa na Ilha.  As críticas ao regime dos irmãos Castro são pertinenente, e este blog  já fez várias postagens sobre o assunto.

Mas existe uma questão menos explorada – e vergonhosa – que é a prisão que o governo dos Estados Unidos mantém na base naval de Guantânamo, em Cuba, para onde manda os detidos sob a acusados de terrorismo. A base de Guântanamo fica em território cubano [saiba mais aqui] e pertence aos Estados Unidos, mas está fora de qualquer regulação internacional. Os prisioneiros ficam numa espécie de limbo, sem acusação formal, sem direito a advogados e sem a direito de apelar para as próprias leis americanas.

O jornal Folha de S. Paulo publicou, na edição deste domingo [21/3/2010] entrevista com um desses prisioneiros, que ficou preso na base por cinco anos, submetido a humilhações e torturas – para depois ser inocentado.

A matéria principal, assinada por Samy Adghirni, que esteve no Iêmes, país que tem o maior número de prisioneiros na base americana, pode ser vista aqui: Guantânamo é ferida Aberta para o Iêmen [para assinantes]. O texto, a partir da conversa que o repórter teve com o iemenita Saleh Al Zuba, pode ser lido abaixo.

Inocentado, iemenita passou 5 anos em prisão sob tortura
Samy Adghirni

O iemenita Saleh Al Zuba, 60, garante nunca ter integrado a rede Al Qaeda. Mas os cinco anos de torturas e humilhações na prisão de Guantánamo despertaram nele um ódio dos EUA que o faz considerar legítimos os ataques da rede terrorista contra alvos americanos.

Os piores momentos, disse al Zuba em entrevista à Folha concedida em um hotel de Sanaa, eram as sessões de tortura psicológica para arrancar informações sobre a Al Qaeda que ele jurava não ter.

“Impediam-me de dormir durante dias. Deixavam-me deitar, mas quando pegava no sono, sacudiam violentamente meu corpo. Chegava uma hora em que enlouquecia.”

Al Zuba conta que os interrogadores da CIA tinham técnicas para saber que tortura funcionava melhor com que prisioneiro. Ele mesmo, um muçulmano devoto, era submetido a humilhações como ver o Corão ser pisoteado ou receber somente comida à base de porco em seu prato.

Certo dia, relata aquele que foi o mais velho detido árabe de Guantánamo, uma jovem americana atraente entrou em sua cela para conversar sobre amenidades. A moça dizia querer praticar o seu árabe com Al Zuba, que a achou sincera. Após alguns encontros, ela começou a seduzi-lo, aparecendo com roupas cada vez mais curtas, até sentar-se seminua em seu colo. “Graças a Deus aquilo não teve efeito sobre mim, e ela parou de ir até a minha cela.”

Já a tortura física consistia principalmente em socos e pontapés, relata Al Zuba, dizendo-se aliviado por ter escapado dos torturadores dos serviços secretos árabes. “Agentes de Tunísia, Jordânia, Marrocos e Egito são os mais cruéis do mundo e fazem muito trabalho sujo para os americanos.”

Preso por engano

O caminho de Al Zuba -casado, pai de três filhos e técnico em eletricidade- até Guantánamo começou pouco antes do 11 de Setembro, quando diz ter ido ao Paquistão para ser operado do coração. Mas, segundo relata, era preciso atravessar a fronteira e ir ao Afeganistão buscar o dinheiro para a cirurgia, que seria entregue por “alguém do golfo Pérsico”.

Al Zuba admite que a organização de caridade que prometera pagar sua operação era “provavelmente ligada à Al Qaeda”. Mas o dinheiro nunca foi entregue. “Eu estava em Candahar no 11 de Setembro. Todo mundo ficou preocupado, fecharam as fronteiras e eu não pude voltar ao Paquistão.”

Ele diz ter sido levado com outras pessoas idosas ou doentes até um acampamento perto de Tora Bora, sob os cuidados de “operários” da Al Qaeda. É lá que ele se encontrava, “num frio terrível, quando começaram a cair bombas como chuva”. Eram os primeiros bombardeios americanos para retaliar os ataques da Al Qaeda a Nova York e Washington.

Uma tarde, ao tentar voltar ao Paquistão, Al Zuba diz ter pedido ajuda, esgotado, a uma tribo afegã, que o recebeu de braços abertos. Mas horas depois, ele foi amarrado e entregue a soldados americanos em troca de uma recompensa que ele avalia em US$ 5.000.

Após semanas sendo levado de uma base a outra, sem saber onde estava, Al Zuba conta que só foi ver a paisagem em volta dele ao chegar em Guantánamo. “Quando tiraram a venda dos meus olhos, logo vi que não estava no Oriente Médio.”

O iemenita afirma ter feito amizades em Guantánamo, apesar do sofrimento geral. “Companheiros me contaram que sabiam meses antes do 11 de Setembro que um grande evento aconteceria, mas eles não conheciam os detalhes.”

Em 2006, uma general americana informou Al Zuba que ele seria libertado porque um tribunal militar o inocentara das suspeitas de ter combatido nas fileiras da Al Qaeda e de ter tido acesso direto a Bin Laden. O preso só acreditou quando o avião pousou em Sanaa.

De fala e gestos suaves, Al Zuba só se exalta quando fala dos EUA. “Como um país que prende e tortura até doentes como eu, sem apresentar uma justificativa legal, ousa dizer que defende os direitos humanos?”, diz o ex-prisioneiro, cujos advogados nos EUA e Iêmen estão exigindo indenização milionária à Casa Branca.

O que pensa da rede de Bin Laden? “Se as justificativas forem legítimas, eu apoio as suas ações. Porque se condena a Al Qaeda, mas se permite o massacre de palestinos?” (SA)

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