Plínio Bortolotti

A Guarda Municipal de Fortaleza e a pistola Taser: o que virá em seguida?

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Na edição de domingo [28/3/2010] li no O POVO a matéria Treino para uso de arma não-letal, dando conta que a Guarda Municipal de Fortaleza comprara 50 armas Taser, pistola que dispara pinos de metal que provocam descarga elétrica capaz de paralisar a vítima por cerca de dez segundos, tempo suficiente para que seja imobilizada.

O diretor da Guarda Municipal, Arimá Rocha, fez questão de dizer – orgulhosamente – que Fortaleza seria a primeira cidade do Norte/Nordeste a utilizar o equipamento. [Vocês já observaram que qualquer coisa que um político faça, aquilo é sempre “o primeiro” em alguma categoria? O Marketing explica.]

Agora, o mais estranho, foi o responsável pelo treinamento, Alberto Marques Azevedo Marques, ter dito que o disparo “não provoca nenhum dano ao atingido”. Das duas uma:

1. ou ele desconhece o equipamento que vai ensinar os outros a usarem;
2. ou conhece, mas esconde informações.

Rápida pesquisa na internet desmente o instrutor: informe da Anistia Internacional relaciona 334 mortes, nos Estados Unidos, provocadas pela arma Taser, entre 2001 e 2008. Angela Wright, da Anistia Internacional, diz que a arma só deve ser utilizada como “último recurso” – e o estudo mostra como a pistola pode ser usada abusivamente pela polícia: 90% da vítimas que morreram estavam desarmadas.

Os estudos mostram que a arma leva pouco risco para adultos em boas condições de saúde. No entanto, o próprio fabricante da Taser já reconheceu que o disparo implica risco, principalmente para quem tem problemas no coração, e aconselha as polícias a evitarem o tiro no tórax da vítima, conforme informações da agência portuguesa Euronews.

Obviamente que não se trata de negar às polícias o uso dessa arma. De fato, elas são menos letais [diferente de “não-letal”] do que o armamento que dispara chumbo ou aço. Mas, chamá-las de “não letais” é um equívoco que não condiz com a transparência que deve ter o serviço público – e nem com os cuidados que se deve ter com o seu uso.

Se o próprio instrutor da Guarda Municipal desconhece, ou minimiza – levando em conta a declaração dada ao O POVO – o potencial ofensivo da arma,  dizendo que ela é “não-letal”, está – conscientemente ou não – incentivando o seu uso indiscriminado. Começa mal o instrutor. Além disso, a própria aparência da arma, que parece uma pistola de briquedo [o seu corpo é de plástico rígido colorido], pode sugerir que ela não provoca dano.

Quanto à Guarda Muncipal, o debate é outro

Se é legítimo que as polícias – com a devida prudência – utilizem a pistola Taser, com a Guarda Municipal o debate é outro.

Em Fortaleza a Guarda Municipal de Fortaleza vem tomando o caminho da militarização, o que me parece incompatível com a instituição. A Guarda deveria se ocupar cuidar dos prédios públicos, acompanhar autoridades e agir comunitariamente, e não como mais uma polícia armada – não é assim que o Município ajudará no combate à violência.

Além das “tonfas” [palavra inexistente na língua portuguesa], que é como a Guarda nomeia o velho cassetete, os agentes também dispõem de bombas de gás lacrimogêneo, bombas de “efeito moral” e gás pimenta. Agora, vão dispor também das pistolas de choque elétrico. O que virá em seguida?

A continuar nesse caminho, a Guarda Municipal corre o risco de ser tão temida quanto a PM, digo, pelos cidadãos de bem.

Veja como dispara arma Taser, em Como tudo Funciona. [Muito bom]
O portal do fabricante, aqui.

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