Plínio Bortolotti

Rachel de Queiroz conta Leonardo Mota

Na edição de sábado passado e neste [24/4/2010] a crônica de Rachel de Queiroz no O POVO falou sobre Leonardo Mota, o pesquisador do folclore cearense, que morreu em 1948.

Leota, seu nome para os amigos, é pouco conhecido das novas gerações. A crônica de Rachel ajudam a traçar o perfil desse homem, o primeiro a recolher, na fonte – de modo original e sem interferência – os versos dos cantadores do sertão e outras manifestações espontâneas do povo, suas histórias e seu modo de via.

As crônicas de Rachel de Queiroz (1910-2003) vêm sendo reproduzidas em homenagem aos seus 100 anos de nascimento; textos que ela publicou originalmente no O POVO.

Rachel foi amiga e discípula de Leota: “Não sei como lhe pague o que me ensinou”.

A escritora também fala, na crônica que Leonardo Mota deixara “filhos inteligentes”, que reuniriam o que o pai não tivera tempo de publicar. De fato, os filhos de Leota reuniram no “Adagiário brasileiro” anotações dispersas do pesquisador, que formam um belo conjunto do linguajar e causos sertanejos.

Quem também se confessou devedor de Leonardo Mota, em palestra realizada em Fortaleza, no ano passado, foi Ariano Suassuna. Ele diz que, desde menino era apaixonado por livros. Também pela literatura de cordel e pela arte dos cantadores, que eram manifestações consideradas menos importantes do que uma obra impressa em um livro. Quando viu aquele material em letra de forma, recolhido por Leonardo Mota, Suassuna diz que foi como uma revelação para ele, pois estava encaixado em um livro, portanto ganhando nobreza a seus olhos. Uma lição que lhe serviu vida a fora, disse.

Abaixo, reproduzo as duas partes da crônica em que Rachel fala de Leonardo Mota. Quem quiser ver o conjunto das crônicas que estão sendo publicadas, acesse as edições de sábado, via portal O POVO.

Para ler algumas das histórias escritas pelo próprio Leota, em “No tempo de Lampião”, que reproduzi neste blog durante algum tempo, clique aqui.

Leonardo Mota [I]
Rachel de Queiroz
17 Abril 2010 – O POVO [Publicada originalmente em 15 de janeiro de 1948]

Morreu o meu amigo Leonardo Mota, o nosso querido Leota, o que é, realmente, uma grande tristeza. A obrigação de morrer pode ser um alívio para quem morre – e para ele talvez o fosse, maltratado pela doença há tantos anos -, mas é bem melancólico para os que ficam. É como o soldado que, caindo, se livra da guerra e das suas misérias; enquanto os companheiros que continuam lutando, além das misérias da guerra, ainda sofrem a falta do camarada perdido.

E, ditas estas primeiras palavras – vede como era forte a personalidade humana desse que foi embora -; à notícia de sua morte o que todos lamentam é o indivíduo, o velho amigo perdido; e só depois de o chorar como simples criatura nossa irmã, é que recordamos o brasileiro ilustre que ele foi, o mestre indisputado do nosso folclore, e a importância da sua obra; e realizamos quão dura perda a morte desse homem enfermo, que durante anos engoliu amarguras e dores no fundo de sua rede, representa para a inteligência brasileira.

Talvez poucos, talvez nenhum na sua especialidade, tenha contribuído mais para o aproveitamento e estudo do folclore nacional. Leonardo Mota era desses que acreditam em colher o fruto na árvore e não comprá-lo embalsamado em caixetas de papelão. Ia apanhar a cantiga na boca dos cantadores, sem intermediário de ninguém, entendendo-se com os poetas sertanejos de igual para igual, por eles respeitado e querido. Nada tinha em comum com os nossos sertanejos de gabinete que entendem muito de cantadores e cangaceiros de retrato, especialistas em material de segunda mão, que estudam e pontificam servindo-se de textos colhidos sabe Deus onde e como, Leota era daqueles trabalhadores humildes e obstinados que só compreendem a obra feita com as próprias mãos. Internava-se durante meses e até durante anos por esse sertão de meu Deus, enchendo cadernos, infatigavelmente, sempre de lápis na mão, ouvindo, registrando, selecionando, com perícia exemplar, com honestidade exemplar, e dele jamais se soube dum texto enxertado, ou “melhorado”, de uma improvisação de preguiçoso ou de vaidoso para suprir alguma falha.

Os cantadores, que são os intelectuais da cantiga, consideravam alta honra serem por ele ouvidos, a mais de um cantador ouvi gabar-se em rima, num desafio, entre outras vantagens excepcionais, que “já andava nos livros do doutor Leota”. Pois, “andar nos livros de Leota”, representava para eles a consagração definitiva, uma espécie de doutorado de repentista. E por ser assim amado e estimado pelos seus modelos, podia colher o material de estudo na sua beleza mais primitiva e genuína, como o encantador de passarinhos que consegue escutar o canto dos mais ariscos voadores no próprio instante espontâneo em que é improvisado. A contribuição de Leonardo Mota foi, pois, inegavelmente preciosíssima para o estudo e aproveitamento do imenso material folclórico por ele colhido e posto em livros, durante algumas décadas de trabalho; e contudo, grande também é a contribuição indireta dessa obra na formação da moderna linguagem literária do grupo de escritores do nordeste. Ele foi como que uma fonte viva da língua para nós todos, proporcionando-nos elementos de renovação, de enriquecimento, pondo-nos em contacto direto com a esquecida ou desprezada linguagem do povo, devolvendo-nos a força da terra, debilitada por tantos anos de pedantismo e preocupações helênicas e promocionais. Foi ele assim para nós uma espécie de precursor e mestre, e muitíssimo lhe devemos.

Leonardo Mota [II]
Rachel de Queiroz
24 Abril 2010 – O POVO

Eu, de mim, especialmente, não sei como lhe pague o que me ensinou. E a releitura constante de sua obra deixou de ser para nós, que a procuramos, além de puro deleite intelectual, uma oportunidade de renovação, uma lição de simplicidade; vale tanto quanto a releitura dos clássicos – não fosse o povo o grande clássico, guardador de relíquias, renovador de formas esquecidas, criador de formas novas, único elemento realmente fecundo e indispensável no processo de conservação e desenvolvimento da língua.

A estirpe de pesquisador a que pertencia Leonardo Mota anda quase desaparecida ou talvez de todo extinta. Só nos aparece agora como figura de romance ou de anedota; realmente, quem vê mais, o estudioso que se larga dos livros e dos professores e vai apanhar o objeto dos seus estudos lá no lugar onde ele nasce e medra? Desses que saem a cavalo, sertão a dentro, desprezando dificuldades, rigores e perigos, maltratando a saúde, atrás de coisas frágeis e sem importância aparente: uma flor, um inseto, uma cantiga? Enfrentava bandidos para lhes ouvir as façanhas dos próprios lábios e registrá-las conscientemente nos seus livros. Era capaz de andar léguas e léguas no chouto duríssimo de um cavalo de vaqueiro só para ouvir um cantador novo ou anotar as novidades de um cantador conhecido. Aquele homem gordo bom bebedor, bom comedor, bom falador, era, apesar da sua aparência indolente, capaz de “suar como tampa de chaleira” (expressão usada por um matuto a seu respeito, segundo ele próprio conta) e se danar caatinga a dentro, cozinhando no sol, cortando pedregulho e mato espinhento, só para enriquecer com mais uma quadra nova os seus cadernos já cheios.

E a obra que deixou, apesar de interrompida pela enfermidade, ai está: copiosa, legítima como uma pepita de ouro e tal como uma pepita bruta cheia de riqueza em potencial, na maioria ainda não aproveitadas. Mas paciência, nela ainda hão de abeberar sedentos os eruditos, e engordar, e disputá-la e enxergarem ao seu redor como moscas.

Foi ele um dos poucos brasileiros que se atreveu a estudar Lampião d-aprés nature, – e colher o anedotário lampiônico dos próprios lábios do herói bandido, dos seus companheiros de bando, dos coiteiros e dos macacos que o caçavam. E dele é, por isso mesmo, o melhor contingente de material que possuímos a respeito do “imperador do sertão”, – e material que traz o selo de genuíno, de garantido, de absolutamente de primeira mão, colhido por alguém que não tinha paixões pró nem contra, que não tinha outra paixão além da paixão da autenticidade.

Leonardo Mota deixou filhos que são homens de inteligência e sabem apreciar como devem o valor da obra de seu pai. Deles esperamos a reunião de tudo que ficou disperso, a valorização do que anda inaproveitado por folhas de jornais, por cadernos rabiscados a lápis, por rascunhos de conferências; eram aliás essas conferências, tão saborosas tão pitorescas, tão ricos de conteúdo poético, que quem as ouviu, não as esquece; e realizavam o milagre de reunir auditórios entusiásticos e enchiam casas à cunha nas mais adormecidas cidades de interior.

Não é possível que se perca ou se esqueça contribuição tão importante para a nossa cultura; e grande será a alegria de todos nós, que fomos amigos e discípulos de Leonardo Mota, constatar que entre a gente mais moça se renova e se multiplica o conhecimento da sua obra, e se ampliam o interesse e a admiração que nós lhe devotamos.

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