Plínio Bortolotti

“Jamais deve haver restrição à divulgação de pesquisas; por que privar o eleitor desse direito?”

José Roberto de Toledo estará este mês em Fortaleza para ministrar curso aos jornalistas do O POVO sobre RAC (Reportagem Assistida por Computador) e leitura de pesquisas. Haverá ênfase na análise das pesquisas eleitorais.

Toledo é colunista do jornal O Estado de S. Paulo e mantém dois blogs em que analisa pesquisas e dá orientações sobre como usar planilhas e internet para levantar dados para reportagens. Os blogs são Vox Populi (Estadão) e Toledol, o blog sobre RAC.

O jornalista também é coordenador da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), tendo ministrado cursos de RAC em vários jornais do país.

Fiz-lhe três perguntas sobre pesquisas eleitoras.

1. Há pessoas que dizem que “acreditam” em pesquisas e outras dizem não acreditar. Como deve ser vista uma pesquisa eleitoral?

As pesquisas de opinião têm base científica e, no caso das eleitorais, comprovação empírica, pois no confronto da sondagem de véspera com o resultado das urnas a taxa de acerto ao longo dos últimos pleitos ficou em 98%, segundo estudo do professor Marcus Figueiredo (Iuperj). As pessoas que não acreditam dizem que nunca foram entrevistadas nem conhecem alguém que tenha sido. E provavelmente nunca serão: é 10 vezes mais provável morrer assassinado em São Paulo do que ser entrevistado por Ibope, Datafolha etc. As amostras são muito pequenas em relação ao universo, mas suficientes. Talvez as pessoas não gostem de admitir que, em conjunto, somos tão parecidos uns com os outros.

2. Pesquisa faz alguém perder ou ganhar eleição? Muda o voto de alguém?

Na imensa maioria dos casos, não. Mas há situações especiais em que a pesquisa pode mudar o voto do eleitor, induzi-lo a um “voto útil”, e alterar o resultado. Mas, em geral, isso se deve mais a erros de divulgação por parte da imprensa do que pelos números das pesquisas. Lembro o caso de Marta Suplicy na disputa do governo paulista em 1998. Paulo Maluf estava garantido no primeiro lugar, e a segunda vaga era disputada entre Marta, Mario Covas e Francisco Rossi. Na última pesquisa, Marta apareceu tecnicamente empatada com os dois rivais, mas numericamente atrás. Mas, ao divulgar o resultado, alguns veículos de comunicação só mencionaram o empate entre Covas e Rossi. Marta deixou de ir ao segundo turno por 50 mil votos, o que dá menos de meio ponto percentual dos votos válidos. E muito gente diz que deixou de votar nela para votar em Covas com medo de um segundo turno entre Maluf e Rossi. A culpa, se houve, não foi das pesquisas, mas dos erros de divulgação. Na verdade, nessa mesma eleição, as pesquisas ajudaram a mostrar como 12% dos eleitores de Rossi (muito mais do que os eleitores dos outros candidatos) não conseguiram transformar sua intenção em voto de fato, no primeiro teste universal da urna eletrônica.

3. Você acha que deveria haver restrições mais severas para divulgação de pesquisas? Acha razoável que elas possam ser divulgada até o dia da eleição?

Restrição à informação é censura. Jamais deve haver restrição à divulgação das pesquisas. Se os políticos, o mercado financeiro, os partidos, os candidatos, os marqueteiros podem ter acesso à informação da pesquisa, por que privar apenas o público, o eleitor desse direito? O voto é resultado de um processo mental no qual a informação é fundamental. Privar o eleitor da informação é limitar sua capacidade de decidir conscientemente o voto. Esse tipo de proposta restritiva vem de pessoas que julgam que o eleitor é incapaz de tomar decisões conscientes, que ele precisa ser tutelado. Isso fere o princípio básico da democracia.

Veja texto de Toledo falando sobre a importância da formação profissional, no portal da Abraji.

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