Plínio Bortolotti

Eu simpatizo com Dunga

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Eu diria: "Colete à prova de boladas" : )

Meu artigo publicado na edição desta quinta-feira do O POVO. Estou preparado para levar as pauladas. [De quebra, ofereço a ilustração do artista plástico Hélio Rôla, que só ganharão os leitores do blog.]

Eu simpatizo com Dunga
Plínio Bortolotti

Vou logo avisando. Nada entendo de futebol, não torço para nenhum time, no Brasil ou no exterior. Desconheço a diferença entre um lateral e um volante.

Fico mais indignado quando cai uma criança de um pau-de-arara, que os prefeitos do interior apelidam de “transporte escolar”, do que quando a seleção brasileira de futebol perde uma Copa do Mundo.

Dito isso, quero confessar o seguinte: eu simpatizo com Dunga, o mal falado técnico do scratch canarinho. Apresentam Carlos Caetano Bledorn Verri como um sujeito bronco, sem imaginação: discordo. Dunga é um sobrevivente e os sobreviventes são pragmáticos, mas nem por isso deixam de sonhar – e sonham alto.

Uma das partes pouco divulgadas na entrevista coletiva em que os escolhidos foram dados a conhecer à Nação, foi aquela em que Dunga comparou-se a um escravo, que leva chibatadas nas costas, mas não as sente, pois sua mente está projetada para o futuro, para a liberdade.

Dunga, como Garrincha, nasceu para dar errado. Mané tinha as pernas tortas; o pequeno Carlos, grossas demais para o futebol. A diferença é que Garrincha tinha talento quase sobrenatural, que é uma dádiva. Os deuses do futebol negaram graça igual a Dunga, mas deram-lhe outro dom: a vocação. Um recurso poderoso quando incorporado a sujeito obstinado, que se impõe disciplina férrea em nome do objeto do desejo.

Dunga, nos gramados, foi como aquele soldado no campo de batalha, que corre todos os riscos para o general brilhar nos dias de festa. Enfrentou o fogo cerrado estoicamente – e deu o troco. No comando, sem medo, chama para si toda a responsabilidade.

Todo mundo, até eu, sabe o nome de Robinho, Ganso e Neymar, mas quantos sabem quem são jogadores da linha de defesa do Santos, garantindo que o time não tome dois gols a cada tento que os seus olimpianos marcam?

“Quem cozinhava o banquete das vitórias?”, perguntaria Brecht, “Tantas histórias, quantas perguntas”.

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