Plínio Bortolotti

Jornal de Arkansas vai na contramão da “gratuidade” e aumenta tiragem

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O jornal “Arkansas Democrat-Gazette”, de Little Rock, capital do estado de Arkansas (Estados Unidos) manteve o seu foco no impresso, investiu na equipe, cobra acesso ao portal do jornal – e conseguiu aumentar a tiragem.

O seu publisher, Walter E. Hussman Jr, diz que seu objetivo é simples: proteger o valor do produto.

O “Democrat-Gazette” teve aumento de cirulação de 173.316 exemplares (1998)  para 176.275 (2008), na média diária. A cidade tem cerca de 200 mil habitantes.

Uma parte da indústria mantém o ceticismo, dizendo que, a longo prazo, a estratégia estaria fadada ao fracasso. No entanto, o caso do “Arkansas Democrat-Gazette” vem sendo estudado com crescente atenção. Em 2008 Hussman foi eleito “publisher do ano” pela publicação “Editor & Publisher”. [Com informações do jornal Folha de S. Paulo]

Veja a seguir a matéria completa, publicada na edição deste domingo [23/5/2010], da Folha de S. Paulo.

Arkansas mostra alternativas para a indústria dos jornais

Andrea Murta
Eenviada especial a Little Rock (Arkansas)
Folha de S. Paulo – edição de 23/5/2010

Little Rock, capital de Arkansas (EUA), é, à primeira vista, candidata improvável a inventar modelos visionários para o mundo dos grandes jornais: tem menos de 200 mil pessoas espalhadas por uma grande área verde cortada por um rio.

Mas é de lá que o publisher Walter E. Hussman Jr. vem convencendo o país de que seu estilo de liderança no diário “Arkansas Democrat-Gazette” -foco no jornal impresso, investimento na equipe e cobrança de acesso ao site do jornal- pode ser o caminho para a superação da crise da indústria de mídia norte-americana.

Seu mote é simples: proteger o valor do produto. “Não faz sentido dar notícias de graça de um lado e esperar que paguem pela mesma coisa depois”, disse à Folha.

A ideia chocou muitos ao ser implementada, no fim de 2001, quando era quase obrigatório oferecer conteúdo grátis na internet. Hussman determinou que quem não assinasse o jornal teria de pagar taxa mensal ou diária para acesso irrestrito a seu site.

“Inicialmente os leitores ficaram irados”, afirmou o publisher. “Ligavam sem parar para reclamar. Colocamos um gerente para falar com todos e explicar que não sabemos como sobreviver gastando US$ 10 milhões por ano na produção de notícias e entregar depois de graça.”

O empresário teve de suportar também o escárnio de outros publishers. Mas, contra todas as apostas, a estratégia deu certo.

Enquanto assistia ao declínio da indústria ao seu redor, o “Democrat-Gazette” se tornou aberração ao ver a circulação aumentar entre 1998 e 2008 -de 173.316 para 176.275 na média diária.

Mesmo a crise financeira global não teve impacto tão dramático. Enquanto boa parte do setor perdeu até 30% dos assinantes, o “Democrat-Gazette” manteve, até setembro, 169.458 cópias diárias na semana e 258.160 aos domingos.

Cortes de funcionários foram limitados a menos de 10% depois do início da recessão no país. O grupo que controla o “New York Times”, por exemplo, cortou 20% no ano passado.

Receita

O “Arkansas Democrat-Gazette” não obtém nem 1% de sua receita com a cobrança no site. O objetivo do modelo é manter os assinantes do jornal impresso, que gera 95% da receita do grupo.

Mas boa parte da indústria mantém o ceticismo.

“Acho que [Hussman] tem uma visão míope do futuro da indústria”, disse Shafqat Islam, consultor de estratégia on-line para jornais. “Está sacrificando sucesso futuro em favor de lucros rápidos baseados em um produto que está morrendo.”

Apesar de ser parte de uma minoria, Hussman é estudado com crescente atenção. Em 2008, foi eleito “publisher do ano” pela publicação “Editor & Publisher”.

Os figurões em Nova York e Londres começam a concordar. O “Financial Times” e o “Wall Street Journal” já têm sistemas de cobrança por acesso na internet; o “New York Times” dará início ao seu em janeiro.

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