Plínio Bortolotti

Crianças e adolescentes: “Quando o trabalho deseduca”

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Meu artigo publicado na edição de hoje (3/3/2011) do O POVO:

Foto de Drawlio Joca. Veja mais em: http://www.flickr.com/photos/drawliojoca (clique para ampliar)

Quando o trabalho deseduca
Plínio Bortolotti

Durante um bom tempo eu achava bom que a pessoa começasse a trabalhar bem jovem. Eu mesmo fui um desses meninos que começaram a trabalhar ainda de calças curtas (sim, naquele tempo de usava calças curtas até os 14 anos de idade). Achava que isso dava tutano e experiência para enfrentar as adversidades que a vida nos apresenta.

Hoje, confesso para vocês – além da ignomínia que é ver crianças pedindo nas ruas ou arrastando um carrinho de lixo – me choca quando vejo rapazes pegando pesado para ajudar a família a garantir o pão de cada dia.

A primeira coisa que penso é: mais um talento perdido: servindo mesas, empacotando mercadorias ou “pastorando” carros. Esses meninos, certamente, são filhos de pais batalhadores, que devem ter dado um duro danado para mantê-los longe das drogas, a salvo da bandidagem e da polícia – e principalmente, vivos.

E, quem são os jovens pressionados a trabalhar cedo? Todos, indistintamente? Não. Apenas os jovens pobres têm de se submeter à “educação do trabalho”, pois, “uma hora dessas, jovens de classe média estão no cinema, em casa na internet, no teatro, estão lendo, tendo acesso a outras culturas”, como disse Preto Zezé (presidente nacional da Cufa) em entrevista à seção Páginas Azuis do O POVO.

Ou como escreveu recentemente neste jornal a assessora Jurídica do Cedeca, Nadja Furtado: “Por trás [da ideia que o jovem está obrigado a trabalhar], está uma concepção discriminatória da juventude, especialmente a pobre, tida como potencialmente perigosa”.

O preconceito que empurra o jovem pobre precocemente para o trabalho – presente no discurso de um amplo segmento das classes médias – persiste também nas periferias. “Na comunidade, quem não trabalha logo é vagabundo” e “as notas que você tira [na escola] não dão a mesma empolgação do que o dinheiro que leva para casa”, nos ensina Preto Zezé.

Se quisermos um país melhor e menos desigual, este é um dos assuntos obrigatórios da pauta de debates.

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