Plínio Bortolotti

“Cultura do turismo, a nova barbárie?”, pergunta Hélio Rôla

De Hélio Rôla (clique para ampliar)

Quando termina mais uma “alta estação” turística em Fortaleza, nada como ler o texto (e ilustração) que Hélio Rôla nos envia. Os trechos são de Nietzsche, escritos no século retrasado, mas parece que foram feitos ontem.

Hélio Rôla, expulso da Praia de Iracema pelo turismo selvagem, segundo anunciou quando deixou sua antiga morada, mudou-se para a Lagoa Redonda, de onde filososfa com os aviões roçando-lhe a cabeça.

Vespas em voo

«À medida que andamos para o Ocidente se torna cada vez maior a agitação moderna, de modo que no conjunto os habitantes da Europa se apresentam aos americanos como amantes da tranqüilidade e do prazer, embora se movimentem como abelhas ou vespas em vôo. Essa agitação se torna tão grande que a cultura superior já não pode amadurecer seus frutos; é como se as estações do ano se seguissem com demasiada rapidez. Por falta de tranqüilidade, nossa civilização se transforma numa nova barbárie. Em nenhum outro tempo os ativos, isto é, os intranqüilos, valeram tanto. Logo, entre as correções que necessitamos fazer no caráter da humanidade está em fortalecer em grande medida o elemento contemplativo. » Nietzsche (1878)

As pessoas se envergonham do descanso

«Há uma selvageria pele-vermelha, própria do sangue indígena, no modo como os americanos buscam o ouro: e a asfixiante pressa com que trabalham – o vício peculiar ao Novo Mundo – já contamina a velha Europa, tornando-a selvagem e sobre ela espalhando uma singular ausência de espírito. As pessoas já se envergonham do descanso; a reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão, enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da bolsa – vivem como alguém que a todo instante poderia “perder algo”. “Melhor fazer qualquer coisa do que nada” – Este princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior. Assim como todas as formas sucumbem visivelmente à pressa dos que trabalham, o próprio sentimento da forma, o ouvido e o olho para a melodia dos movimentos também sucumbem. […] Pois viver continuamente à caça de ganhos obriga a despender o espírito até a exaustão, sempre fingindo, fraudando, antecipando-se aos outros: a autêntica virtude, agora, é fazer algo em menos tempo que os demais.» Nietzsche (1882)

[São meus os grifos e subtítulos.]

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