Plínio Bortolotti

Jornalista é demitida ao se recusar a publicar na véspera o que primeiro-ministro português diria no dia seguinte

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Texto do colaborador do O POVO em Lisboa, Eduardo Lage.

Parece surrealismo mas não é. A editora da noite da Agência de Noticias Lusa, propriedade do estado [do governo de Portugal], foi demitida em virtude de se ter recusado a escrever e editar uma frase como tendo sido dita pelo primeiro-ministro, José Sócrates, quando na verdade ele só a ia dizer no dia seguinte.

Expliquemos então: no dia 18 de fevereiro, o empresário Alexandre Soares dos Santos, presidente do Grupo Jerónimo Martins, criticava José Sócrates afirmando o seguinte: “Os truques é o Sócrates quem faz, não sou eu. Não vale a pena continuar a mentir. Não vale a pena pedir sacrifícios sem dizer a verdade. Não adianta negar que estamos em recessão” [referência à situação econômica de Portugal].

No dia seguinte, dia 19 de fevereiro, Sócrates reagiu a estas declarações do empresário, dizendo públicamente:“Não é minha função dar lições de boa educação. Não basta ser rico para se ser bem educado”.

Ora, no dia 18 à noite, um assessor do primeiro-ministro José Sócrates telefonou à jornalista Sofia Branco, editora da noite da agência Lusa, para que esta declaração de Sócrates fosse editada como tendo sido proferida, quando na realidade ela só iria ser proferida no dia seguinte. A recusa levou a que a jornalista fosse demitida por alegada “quebra de confiança”.

Perante esta situação o Conselho de redação da agência decidiu avançar com uma queixa na ERC (Entidade Reguladora da Comunicação).

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