Plínio Bortolotti

Salve o interior

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Meu artigo publicado na edição de hoje (30/6/2011) do O POVO.

Foto de Drawlio Joca, da coleção "Sertões (Gênero Humano)": http://www.flickr.com/photos/drawliojoca (clique para ampliar)

Salve o interior
Plínio Bortolotti

Independentemente de quantas cidades estejam envolvidas nos malfeitos do empreiteiro (nas páginas policiais ele receberia outra qualificação) Raimundo Morais Filho – que criou uma rede de “empresas” para fraudar licitações – tendo como, digamos, “sócios” alguns prefeitos do interior – o caso é grave, porém não surpreendente.

Sendo corruptos ou não, parte dos prefeitos do interior – para começar – preferem morar em Fortaleza e costumam visitar suas cidades em reluzentes cabines-duplas; outros lidam com a administração como se cuidassem de uma bodega; há os que, ao defrontarem com a burocracia, própria do serviço público, livram-se dela contratando “escritórios” de contabilidade (leia-se lobistas), outra fonte de corrupção. Normalmente, essas cidades são “propriedade” de uma ou duas famílias, que vão transmitindo o “feudo” para filhos e parentes, como se fossem detentores de direito divino.

O repórter Demitri Túlio conta ter visto um prefeito, “administrando” a prefeitura em sua própria casa, sendo o “escritório” no quarto de dormir, tirando dinheiro do bolso, quando auxiliares vinham pedir verba para alguma despesa. Eu mesmo já vi prefeito, na sede do poder público, de bermuda, camisa aberta no peito, e calçando chinela japonesa, em pleno horário comercial.

Esse tipo de costume nos diz o seguinte: a democracia (ainda imperfeita) que existe nas grandes cidades e capitais, onde há mais vigilância, não chegou à maioria das cidades de nossa “interland”, para ficar com uma palavra mais de acordo com os tempos pré-históricos desses hábitos.

Obviamente isso não é um libelo generalizante contra as cidades do interior; nelas há bons exemplos de administração, do mesmo modo que algumas grandes cidades têm alguns dos defeitos citados. Trata-se de demonstrar a injustiça que é ver tanta riqueza, tanta potencialidade e tanta criatividade, submetidas ao jugo de administradores mal preparados, desidiosos e, por vezes, simplesmente corruptos.

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