Plínio Bortolotti

“Dicta & Contradicta”: ensaios de filosofia não-herméticos

Clique para ampliar

“Primeiro a devoção, depois a devoção”, acho que é mais ou menos assim o dito popular, pelo menos aos sábados quando se sai para ver Não se preocupe, nada vai dar certo (recomendo) – e depois se passa em uma livraria, no caso a Nobel.

Cauda longa

Mantenho o hábito de frequentar livrarias, mesmo sabendo que elas não podem aderir à cauda longa, pois o impresso ocupa muito espaço e, assim, eu sei que vou voltar sem alguns dos livros que estão na minha listinha.

Aí, tenho de apelar para a Internet, onde espreitam clonadores de cartões, que me atiram dos braços da “operadora”, que me faz passar por uma via crúcis de ligações telefônicas, até que resolvem o problema – o que demora – e deixa o sujeito mais compreensivo do mundo de mau humor.

Revista

Mas o caso é que, mesmo não encontrando os livros que procuro nas livrarias, outros acabam me achando, como foi o caso de Dicta & Contradicta, que não é bem um livro, mas uma revista que se parece com.

Ela, a revista, se apresenta como uma “aposta aloucada de um grupo de amigos que gostavam de discussões filosóficas regadas a café”. A “aposta aloucada” dos rapazes deu certo, por ter chegado, a Dicta, à “idade da razão”, quatro anos, e ao “número cabalístico” 7 – pois semestral -, o qual adquiri por R$ 29,90.

A DC não faz concessão à linguagem fácil – e nem aos textos curtos -, mas também foge da hermética, o gosto de alguns intelectuais que fazem pose de incompreendidos. Bem escrita, é o que se pode dizer.

Ensaios

Li, até agora, três dos ensaios, dos quais farei breves comentários. Pela amostra, a revista deve valer o preço de capa.

Pela ordem,  Ateísmo ou superstição? A inatualidade de um problema contemporâneo (Rémi Brague), no qual o autor procura responder as seguintes perguntas: “O que é melhor, a incredulidade ou a superstição?”; “Será mais agradável ser supersticioso do que ser ateu?”; “Qual das duas atitudes constitui a blasfêmia mais grave perante a divindade?” Fazendo o resgate histórico-filosófico dessas ideais, o autor escreve um texto esclarecedor e interessante.

Battisti

Do divino para o mundano fui a Cesare Battisti – Memórias de um homem condenado (Anthony Daniels), em que é comentada a pendenga que mobilizou discussões em todo o país. Depois de traçar um perfil de Battisti e de buscar as várias razões que levaram a esquerda a defender Battisti, Daniels chega à seguinte conclusão:

“O que mais me deixa alarmado com relação ao caso Battisti, é o fato de ele revelar, mais uma vez, como um importante e poderoso setor da intelligentsia de uma democracia liberal é capaz de oferecer a sua simpatia e o se apoio à causa de uma pessoa cujos objetivos confessos eram destruir essa própria democracia liberal; e é capaz de fazê-lo valendo-se de argumentos sofisticados. Os membros dessa intelligentsia veem Battisti como alguém que teve coragem (que eles não tiveram) de agir segundo os ideais revolucionários que eles próprios estavam convictos na sua juventude, e eles não podem condená-lo com sinceridade, sem condenar com sinceridade a sua própria vida passada. Por sua vez, isso implicaria admitir a possibilidade de o seu idealismo da juventude não ter sido bem isso, mas apenas arrogância e o egoísmo juvenis postos a serviço do mal; a condenação viria inevitavelmente acompanhada de uma reavaliação da próprio caráter e da própria vida. E se há algo de que o homem moderno foge mais que da peste bubônica, é o exame da consciência”.

Mamet

Li ainda Quatro ensaios sobre teatro, de David Mamet, um cara que eu só conhecia no cinema – e cujo texto mantém a mesma força que seus filmes -, escrevendo coisas como: “A poesia é insuficiente; a beleza da linguagem é um aspecto acidental. O que é essencial? O roteiro”.

Ou “O teatro é essencialmente gente presa no elevador”. Tem ainda vários conselhos que ele dá para aspirantes a ator, que me pareceram muito interessantes, apesar de a minha experiência com teatro e cinema seja só a de ver.

Outros

Tem ainda ensaios sobre o poeta francês Yves Bonnefoy, Mcluhan, J.D. Salinger, em “defesa da linguagem” – e vários outros.

Recomendado para você