Plínio Bortolotti

Uma coisa leva à outra: do PIG às “Recordações do escrivão Isaías Caminha”

Leio com certa regularidade os artigos de Lúcio Flávio Pinto, o editor do Jornal Pessoal (PA), um dos jornalistas mais perseguidos do país, que se confronta constantemente com a grande imprensa, mas nem por isso deixa que se sufoque a clareza de suas ideias e seu poder de análise.

Para que serve?

Ele não cai, por exemplo, no canto da sereia que classifica os meios de comunicação como PIG (partido da imprensa golpista).

Em seu artigo A imprensa, para que serve?, ele escreve:

“Encarar a grande imprensa como um Partido da Imprensa Golpista não é só uma ofensa à verdade histórica: é uma forma sorrateira (e, para alguns usuários dessa definição, cínica) de estimular, ainda que subliminarmente, a censura oficial, a perseguição estatal ou a sedução pelo poder estabelecido”.

Recordações

No mesmo artigo Lúcio Flávio anota que o livro Recordações do escrivão Isaías Caminha faz “uma das mais confiáveis referências sobre a redação de um jornal dessa época” (início do século passado). O livro é de Lima Barreto, o mulato que tinha “a alma de bandido tímido”, como sua própria descrição.

Instado pela citação, voltei ao livro e – diferentemente do que escrevi no post abaixo -, a maioria das vezes sinto reduzir-se o impacto quando revejo determinada obra, “Recordações…” fez um efeito inverso. A poderosa escrita de Lima Barreto, a cada vez que se lê, é uma porrada mais forte.

Lima Barreto

Ele não faz concessão nem a ele mesmo e deixa-se nu nas “Recordações…”, pois Isaías Caminha é seu evidente alter ego: descrevendo a humilhação, o desprezo e o escárnio a que se vê jogado em uma sociedade prenhe de preconceito. Isaías, jovem e bem preparado intelectualmente, vê nulidades passando-lhe à frente, ascendendo socialmente, enquanto a ele é reservada uma posição subalterna.

Trechos

“[…] Fiquei amedrontado em face das cordas, das roldanas, dos contrapesos da sociedade; senti-os por toda a parte, graduando os meu atos, anulando os meus esforços; senti-os insuperáveis e destinados a esmagar-me, reduzir-me ao mínimo, a achatar-me completamente.”

Quando é interrogado por um delegado, que duvida de sua condição de estudante (obviamente devido à sua cor). “Você é um gatuno”, diz o homem a lei. “Todo eu me agitei, todo eu me indignei. Senti num segundo todas as injustiças que vinha sofrendo; revoltei-me contra todos os sofrimentos que inha suportando. Injustiças, sofrimentos, humilhações, misérias, juntaram-se dentro de mim, subiram à tona da minha consciência, passaram pelos meus olhos e então expectorei sacudindo as sílabas:

— Imbecil

(O que lhe custa algumas horas no xadrez da delegacia.)

Jornal

Como contínuo e, depois, como repórter de jornal (o que Lima Barreto, de fato, foi) Isaías Caminha passa a ver as coisas com mais clareza – e faz uma descrição demolidora da imprensa carioca no início do século passado.

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