Plínio Bortolotti

“Graciliano – Retrato fragmentado”: a precisão como método de trabalho

Ler Graciliano Ramos deveria ser obrigatório em todas as escolas de jornalismo. Ele é exemplo de concisão; do uso preciso de cada palavra. Nada em seu texto é ao acaso.

Para quem quiser conhecer um pouco mais de seu método de trabalho, sugiro a leitura de “Graciliano Ramos – Retrato fragmentado”, de autoria de Ricardo Ramos, seu filho mais novo. O livro foi lançado em 1992 e ganhou uma boa reedição da editora Globo, com prefácio de Rogério Ramos, neto de Graciliano, filho de Ricardo.

Cavalo

Filiado ao PCB, stalinista, a ponto de chorar (o que foi uma surpresa para mim) quando morreu Joseph Stalin, Graciliano nunca se submeteu aos cânones do “realismo socialista”. Para Jdânov, encarregado pelo PCURSS de produzir informes sobre arte e literatura para orientar os escritores do partido, Graciliano tinha um substantivo (ele evitava adjetivos):

– É um cavalo.

Que demais

De outra feita, pediu ao filho para revisar “Angústia”, dizendo-lhe ter “que” demais. Ricardo releu a obra e diz ter achado apenas quatro “ques” passíveis de supressão:

– Ótimo, valeu a pena. São quatro pestes a menos.

Viagem

O melhor capítulo é o último, que começa depois de morte de Graciliano (1953). Nele, Ricardo comenta a fortuna crítica da obra do pai e mostra como ela começa a ganhar vulto, fora do círculo de escritores e críticos literários. Mostra também a luta que a família teve com a direção do PCB que queria ler “Memórias do cárcere” e “Viagem” (relato que Graciliano fez de sua visita à União Soviética) antes de serem publicados.

O trecho mais conhecido do livro é a descrição que Ricardo faz das orientações que recebe de Graciliano, quando ele (o filho) começa na sua lida de escritor. Serve como uma pequena aula, principalmente para jornalistas.  Veja.

Ricardo Ramos
no livro “Graciliano – Retrato fragmentado”

Eu tinha pouco menos de 15 anos quando cheguei ao Rio e foi aí que praticamente conheci meu pai. Sua prisão me deixara muito pequeno, lá em Maceió, na casa de meu avô materno. Umas férias ligeiras, dois meses corridos entre espantos cariocas, não haviam bastado para nos aproximar. Se dele quase não aguardara nem o rosto, quanto mais traços de temperamento. É facil imaginar as surpresas que tive, no primeiro encontro, me oferecendo um cigarro (“Você fuma?”) ou nas muitas conversas continuadas.

Logo eu trabalhava em jornal, fazia política, estudava à noite. Ele era inspetor de ensino na minha escola, acreditei piamente que só fiscalizava a mim. Depois eu começava a escrever, umas coisas que pareciam contos, e naturalmente foi meu primeiro leitor. Além do geral de política e literatura, nosso terreno mais comum, passamos a falar daquilo em particular. Principiava meu aprendizado.

– Não escreva “algo” – ele implicou

Quis saber por quê, me respondeu
– É crime confesso de imprecisão.

Mais tarde eu estranhei:
– Por que você não usa reticências e exclamações?

Não demorou um segundo:
– Reticências, porque é melhor dizer do que deixar em suspenso. Exclamações, porque não sou idiota para ficar me espantando à toa.

E certa vez, a propósito de um parágrafo que eu empregara diferentes tempos de um verbo (passado, presente, futuro), recomendou:
– Não faça isso.

Resisti, Machado de Assis fazia, até numa frase. Estava certo. Era um erro sim. Não gramatical, mas de pensamento. Ninguém raciocina aos pulos. E arrematou:
– O importante é escrever duas páginas no condicional sem ficar monocórdio, nem dar eco, sem que se perceba.
Esmoreci, confessando:
– Não vou conseguir isso nunca.
Ele me animou:
– Vai, sim. Com suor, paciência, vai.

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