Plínio Bortolotti

O Modernismo na poesia cearense

A Mel gostou muito do projeto gráfico do livro, principalmente da capa: acha que combinou com ela (clique para ampliar).

Confesso que comecei a ler distraidamente “O Modernismo na poesia cearense”, livro do professor Sânzio de Azevedo, editado pelas Edições Demócrito Rocha. Mas, imediatamente,  fui fisgado pelo livro, um ensaio escrito com perícia, além de ser uma ótima coletânea de poesias do Modernismo cearense. Sugiro a leitura silenciosa da parte ensaística e a declamação em voz alta das poesias.

O Maracajá

Como revela o título, o livro trata do movimento modernista no Ceará, focando o período em que Demócrito Rocha editou “O Maracajá” (1929), caderno de cultura encartado no O POVO. O próprio Demócrito Rocha foi um dos poetas que aderiram ao verde-amarelismo, ele sob o pseudônimo de Antônio Garrido, produzindo um dos mais conhecidos poemas gestados no Ceará: “O rio Jaguaribe é uma artéria aberta”.

Regionalismo

Passeiam pelo livro uma plêiade (gostaram?) de moços que queriam liquidar com os parnasianos e os sonetistas. Para isso, abusavam do regionalismo “com grande gasto de índios, antas, cocares e mais brasilidades, em frases de três palavras”, no dito espirituoso de Rachel de Queiroz, que fazia parte da turma de poetas – e que depois abandonou os versos para se dedicar a crônicas e romances.

A verve da moçada se pode ver em poemas cômicos como este, de Heitor Marçal (trecho):

yoyô escancahdo nas pernas
da mãe preta matracava
paracatu paracatu
pra serra do muru
comer carne com angu

E um exemplo de regionalismo na pena de Mário de Andrade (do Norte, isto é, do Ceará), em “cariri”:

brazil cheio de sóis tropicais dos meios-dias,
ouça agora a voz da gente do ceará —
que tem a sua mesma idade
e você ainda não conhece bem…;

ouça a voz desta terra semi-bárbara,
onde o vento derruba o chapéu da gente
e aterra os olhos alheios de ondas de poeira;

onde o mapa mostra mil milhões de rios
e riachos —
e só aparece água (quando aparece)
de nove em nove meses;
ouça a voz de guerra dos cangaceiros;
ouça a voz piedosa de todo o sertão
dizendo: misericórdia!

quixadá (nem o cedro dá jeito)
com grande olheiras e pranto correndo
pelos rústicos canais de irrigação;
quixeramobim anestesiado;
senador-pompeu enrolando todo-o-mundo
em canudos de areia e em gritos de combate;
e afonso pena;
iguatu;
cedo;
lavras;
missão-velha…
— ah! brasil! —
eu não vou mais para-a-frente!
porque se eu disse ao povo do cariri
que você não conhece o ceará —
— você se arrepende, brasil!

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