Plínio Bortolotti

Deus, o Diabo e os jornalistas

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O texto abaixo, escrevi para a edição nº 3 da revista O POVO Cenário, que está circulando

Deus, o Diabo e os jornalistas

Por que alguém resolve ser jornalista? No meu caso foi pelo interesse que sempre tive pelas palavras.

A minha casa não era uma casa de leitores: apenas livros didáticos ocupavam uma prateleira esquálida. E os jornais, eu os conheci, pois meu pai, pequeno comerciante, os comprava a quilo – no tempo em que se embrulhava mercadoria. Eu aproveitava para ler as notícias antigas, enquanto alinhava os cadernos – cuidadosamente -, para deixá-los sobre o balcão, sob uma pedra, de modo a proteger as páginas do vento.

Mais novo ainda – antes mesmo de entrar na escola – lembro minha mãe me puxando pelo braço enquanto eu mantinha a cabeça voltada para trás, tentando decifrar alguma placa comercial pela qual havíamos acabado de passar.

No colégio, escrevia para o jornal dos alunos. Um dos meus “contos”, me lembro, a professora leu em sala, provocando debate sobre se o personagem morrera no final. Com ares de escritor, respondi que a interpretação ficava a cargo do leitor.

Depois me interessei pelos palíndromos – tornei-me obcecado. Tudo lia de trás para frente, pois é: “Irene ri” enquanto “A diva em Argel alegra-me a vida”.

Mas a essência do poder da palavra descobri lendo a Bíblia. E Deus disse: “Faça-se a luz” e a luz foi feita. E Deus disse: “Produza a terra plantas, ervas que contenham sementes e árvores frutíferas que deem fruto segundo a sua espécie…” E assim por diante, até materializar o mundo todo como o vemos hoje (bem, naquela época era um pouco diferente).

A revelação para mim foi ver que Deus construíra o mundo pela palavra. Descobri que, pela palavra, tudo é possível. A palavra é o Bóson de Higgs de Deus. Entendi também por que Deus oculta dos homens a essência do segredo. E, sem dúvida, ele esconde o mistério das palavras na árvore que está no meio do jardim. Por isso, creio, nem Adão e nem Eva tiveram tempo suficiente para conhecer verdadeiramente o conteúdo árvore, pois Deus apressou-se em aparecer: passou-lhes um sermão e os expulsou do paraíso. Pôs lá, na porta, um Querubim segurando uma espada flamejante para que eles não se atrevessem a voltar. Ora mais, onde já se viu?, deve ter resmungado o Senhor.

Todas as vezes que o homem tenta se aproximar dos desígnios de Deus, ele aparece para acabar com a brincadeira. E o castigo está sempre relacionado com a palavra, pois somente pela palavra essa possibilidade se apresenta.

Assim ele o fez com aqueles que ousaram construir a Torre de Babel para chegar aos céus. Que ***** é essa, deve ter dito Deus, se ele falasse palavrão. Desceu à terra: “Eis que são um só povo” – disse ele – “e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos”. E mandou o castigo: “Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que não compreendam um ao outro”. E foi assim que o mundo se inundou de inúmeras línguas, pois Deus sabe que o poder das palavras potencializa-se quando elas conseguem transmitir o conhecimento sem interferências.

Depois de ter chegado a esse entendimento, percebi que lidar com as palavras é como brincar de ser Deus. Tomei um susto. Mas não tinha mais jeito: eu já havia me tornado jornalista.

A única coisa que posso fazer agora é tratar muito bem as palavras. Usá-las com muita parcimônia, ser cuidadoso, respeitá-las, não confundi-las e nem confundir com elas. Pois, do mesmo modo como Deus está vendo, o Diabo está espreitando no meio delas.

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