Plínio Bortolotti

Ronda do Quarteirão: “Ninguém encontra o coronel”

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Meu artigo publicado na edição de hoje (31/1/2013) do O POVO

Arte: Hélio Rôla

Arte: Hélio Rôla

Ninguém encontra o coronel
Plínio Bortolotti

Faço mea culpa: fui um dos que elogiaram o programa Ronda do Quarteirão, quando lançado no primeiro governo Cid Gomes. O Ronda nos foi vendido como “nova” e comunitária polícia. Estaria, supôs-se, livre dos vícios da antiga, cujo mandato judicial, nas periferias, costuma ser substituído por um chute na porta, um “cala a boca vagabundo” ou um tapa na orelha. Mas o Ronda adquiriu – e com que rapidez! – todos os vícios da “antiga” polícia.

Ao assumir a Secretaria da Segurança, o coronel PM Francisco Bezerra afirmou que seu intento seria fazer o Ronda voltar ao seu projeto original. Mas, na mesma – e rara – entrevista ao O POVO (4/1/2011), enviava sinais contraditórios. Declarou: “Acho que os direitos dos cidadãos devem ser preservados, mas essas questões podem ser resolvidas pelo superintendente da Polícia Civil, pelo comandante da PM. Meu pensamento sobre o sistema de segurança é macro”.

O que é mais “macro”, coronel, do que uma polícia respeitadora dos direitos humanos, portanto, da lei – assunto indelegável, mas que o senhor acha que pode ficar na alçada de seus subordinados? (Tirante que mesmo o “macro”, como o coronel o entende, também vai mal.)

Se o Ronda ficasse nas presepadas de menor potencial ofensivo – a imperícia dos motoristas das portentosas Hilux, ou sendo os carros usados para uma cochilo – vá lá. Mas o comportamento dos policiais fica cada vez mais perigoso: agressão a jovens da periferia que ousam circular em bairros “nobres” – e mais violento, como no assassinato Bruce Cristian, de 14 anos.

Agora, mais dois jovens são mortos e cinco ficam feridos a bala em ação desastrosa do Ronda do Quarteirão. Chamados para coibir um “paredão de som”, que atrapalhava o pré-carnaval no bairro Ellery, o procedimento desandou no tiroteio de consequências fatais.

O avô de um dos jovens assassinados declarou a este jornal: “Quando o Ronda chegou ao nosso bairro foi uma festa. Hoje não é mais assim”. Será que o distante secretário da Segurança faria o grande favor de aparecer para responder a esse avô, por qual a razão o Ronda, de esperança transformou-se em medo?

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