Plínio Bortolotti

“O preço”: sobre a “timidez” da intelectualidade de enfrentar polêmicas

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Meu artigo publicado na edição de hoje (28/2/2013) do O POVO.

O preço
Plínio Bortolotti

No período em que ocupei a titularidade da editoria de Opinião, um dos surpreendentes problemas com a qual me deparei foi a, digamos assim, “timidez” da intelectualidade acadêmica – e alguns outros segmentos – em encarar polêmicas.

Recebia artigos que eram claramente respostas a outros textos publicados, sem que o autor da primeira obra fosse citado. Sugeria, então – a quem escrevia – para que deixasse claro tratar-se de uma réplica, propiciando o debate. Dizia também que o leitor merecia ser esclarecido sobre a polêmica. As respostas que recebia variavam, de um “deixa prá lá” a um direto “não quero me indispor com colegas”.

Em uma das vezes, a coisa chegou às raias da comicidade. Recebi um texto incompreensível, apesar de redigido corretamente. Consultei o autor e ele respondeu: “Ah é uma resposta para o fulano, ele vai entender”. Dessa vez não me contive, suspendi por instantes a polidez devida a fontes e colaboradores, e respondi: “Então o sr. faça o seguinte, envie uma carta a ele e poupe o leitor”.

A meu ver intelectuais e jornalistas (que se propõem a escrever artigos) têm o dever de expor o que pensam; aguentando depois o tranco. Não sei se por ingenuidade, costumo agir dessa maneira.

No artigo que escrevi me declarando um sujeito de esquerda (creio que os homens são mais iguais do que desiguais) fui acusado de “compactuar” com os “massacres” cometidos por regimes “comunistas”; me chamaram de aliado de Cuba – e fui xingado de “imbecil”.

Na semana passada, quando critiquei os que quiseram impedir a blogueira Yoani Sánchez de falar, fui acusado pelos fãs do regime cubano de defender uma “agente da CIA” e de estar a soldo da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), entidade que reúne os proprietários de jornais das américas.

(Deixando a modéstia de lado, informo que também há uma boa quantidade de pessoas que veem qualidadades nos meus escritos.)

Mas como não cultivo o “pensamento único”, nem à direita nem à esquerda, costumo sair de algumas polêmicas com escoriações generalizadas. É o preço a ser pago pelos que ousam pensar de forma independente. Eu acho que ainda sai barato.

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