Plínio Bortolotti

Bem vindos, médicos cubanos

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Foto: Drawlio Joca

Foto: Drawlio Joca (clique para ampliar)

Meu artigo publicado na edição de hoje (16/5/2013) do O POVO:

Bem vindos, médicos cubanos
Plínio Bortolotti

Desabou sobre o Ministério da Saúde uma enxurrada de críticas depois do anúncio que seriam contratados seis mil médicos cubanos para trabalhar no Brasil. Tirante a palhaçada da revista Veja, vibrando em suas páginas a acusação de que o país seria inundado de “espiões comunistas” – parlapatice indigente, que merece citação apenas pela teratologia circense – sobram os argumentos risíveis e os supostamente técnicos.

Entre os risíveis está dizer que os cubanos teriam dificuldade de entender a língua dos brasileiros. Pelo tipo de formação, os médicos da Ilha terão menos dificuldade para compreender os males do povo do interior do que elite médica nativa, que conhece Miami, porém nunca esteve nos grotões. Um destes ficaria com cara de abestado frente a um sertanejo queixando-se do pé desmentido ou de uma mãe aperreada, prestes a ter um farnesim, dizendo: “Doutor, trouxe o meu bichim porque ele está com o bucho quebrado”.

Quanto aos argumentos “técnicos”, as corporações médicas – conselhos e sindicatos – alegam faltar aos cubanos a preparação para o exercício da medicina. Poder-se-ia dizer o mesmo de boa parte dos médicos nativos, porém dos cubanos será exigida prova de qualificação, o que descredencia a crítica.

O suposto argumento técnico, na real, visa a garantir reserva de mercado. Mas fica difícil entender, mesmo desse ponto de vista, pois a maioria dos médicos tupiniquins recusa-se a clinicar em áreas remotas. Assim, essa reserva assemelha-se às “áreas de engorda” de especuladores imobiliários, que seguram grandes lotes urbanos, esperando valorização. Pelo jeito, do mesmo modo agem as corporações médicas. Querem, talvez, criar uma reserva preventiva, pois, por ora, não se dispõem ao trabalho distante.

Aceitem-se os motivos dos médicos brasileiros que preferem os grandes centros. Mas eles não têm o direito de atrapalhar os profissionais dispostos a mergulharem no Brasil profundo.

 

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