Plínio Bortolotti

Trotsky escreve sobre o cotidiano e “aos colegas jornalistas”

O meio que a Mel usa para conseguir o que quer são os miados: um para cada coisa (clique para ampliar)

O meio que a Mel usa para conseguir o que quer são os miados: um para cada coisa. Quanto à moral, isso não está no terreno das preocupações dos felinos (clique para ampliar)

Reencontrei-me recentemente com um livro que sumira de minha modesta biblioteca; não o que sumiu exatamente, mas com outra edição de Questões do modo de vida / A moral deles e a nossa, que reúne alguns ensaios de Leon Trotsky, um dos principais líderes da Revolução Russa de 1917.

A moral deles

“A moral deles e a nossa” foi escrito na década de 1930, quando Trotsky, expulso da União Soviética por Stálin, encontrava-se exilado no México. No ensaio Trotsky contrapõe a moral comunista com a burguesa, defendendo que os meios estão inapelavelmente vinculados aos fins (o que, para ele, é diferente do famoso “os fins justificam os meios”). Para simplificar, mesmo os meios mais abjetos (o sequestro de crianças e famílias para submeter o “inimigo de classe”), para Trotsky são válidos em uma guerra que opõe revolucionários e forças reacionárias.

Os meios e os fins

O que há de interessante, além da escrita vigorosa, assertiva – e por vezes irônica – de Trotsky é que ele não enfeita o pavão: defende abertamente essas ideias, responsabilizando-se integralmente, sem meios termos ou justificativa outra, que não os interesses da revolução (e portanto da humanidade, na visão dele)  por atos do tipo que tomou durante a guerra civil russa, quando comandava o Exército Vermelho, contra o Exército Branco, que se opôs ao governo bolchevique.

Vida cotidiana

Mas quero tratar aqui dos ensaios enfeixados em “Questões do modo de vida”, escritos em 1923, com o poder bolchevique já consolidado, Trotsky vê-se tomado por outras preocupações, além da política, no sentido estrito do termo: a vida cotidiana russa, que ele via com olhos severamente críticos.

O homem não vive só de política

Para Trotsky, como “o homem não vive só de política”, e com o governo estabelecido, o Partido Comunista da URSS teria se se concentrar no “militantismo cultural”, de modo a elevar a educação do proletariado. “É preciso reparar pontes, ensinar a ler e escrever (…) lutar contra a imundície, prender os escroques, levar eletricidade ao campo”. Um dos quadros mais importantes do Partido Comunista e do governo, Trotsky volta-se para questões aparentemente banais, como o hábito russo de cuspir no chão ou atirar pontas de cigarros em qualquer lugar. Para ele, agir assim, era “desdenhar do trabalho alheio”.

Grosseria

Deblatera-se contra a “grosseria” russa e a mania de seu povo (instruídos ou não) de se expressar por meio de palavrões; identifica o consumo excessivo de vodka como um problema, comenta a fragmentação que atinge as famílias soviéticas e especula a forma como se poderia alcançar a igualdade entre homens e mulheres (questões que ele vê mais como culturais do que políticas).

Ritos

Fala ainda sobre os ritos e a necessidade que os homens sempre tiveram deles; mostra grande entusiamo pelo cinema, então nascente – vendo na nova arte um concorrente direto da igreja (que ele vê como uma fornecedores de rituais e espetáculos). Mas, ao mesmo tempo em que investe contra a igreja e seus ritos, reconhece que eles são parte inseparável da humanidade – e pergunta o que a revolução poderá pôr no lugar para substituí-los.

Burocracia

Leon Trotsky combate a nascente burocracia nos órgãos governamentais (a do partido também avançava), que teria herdado do passado feudal a grosseria e o desrespeito para com os mais humildes, agregando novos vícios – e defende a necessidade de “atenção e delicadeza como condições necessárias para as relações harmoniosas” (entre as pessoas e entre as pessoas e as instituições do Estado). “A luta contra a grosseria faz parte da luta pela pureza, a clareza e a beleza da linguagem.”

Colegas jornalistas

Trotsky também fala sobre jornalismo (pelo modo como expõe, mostra intimidade com as técnicas da “imprensa burguesa”), instando os jornalistas soviéticos a apresentarem os fatos de “forma clara e inteligível: deve precisar onde o fato passa e como se passa”, e aconselha “os colegas jornalistas” a se absterem de aplicar “lições” ou “sermões” aos leitores, pois estes querem que os jornalistas lhes expliquem “clara e inteligivelmente o que se passou, onde e como se passou”, pois assim “as lições e exortações se farão evidentes por si mesmas”.

Pequenas grandes coisas

Parece meio deslocado ver a mente mais poderosa da Revolução Russa, ao lado de Lênin, enredado em questões aparentemente banais. Aos possíveis críticos, Trotsky mesmo responde: “Em história não se faz nunca grandes coisas sem pequenas coisas. Mais exatamente: as pequenas coisas, numa grande época, quando integrada numa grande obra, deixam de ser ‘pequenas coisas'”.

 

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