Plínio Bortolotti

O segundo linchamento de Fabiane de Jesus

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Reprodução da coluna “Política”, publicada na edição de 10/5/2014, do O POVO.

Arte: Hélio Rôla

Arte: Hélio Rôla

O segundo linchamento de Fabiane de Jesus
Plínio bortolotti

A trágica morte de Fabiane Maria de Jesus, linchada por pessoas iguais a ela, do mesmo bairro, da mesma condição social, está sendo usada na disputa política insana que conspurca a vida do país. Esse tipo de fenômeno grotesco – sobre o qual nem estudiosos do assunto conseguem chegar a conclusões definitivas – virou campo de disputas rasteiras, ilações simplificadas e acusações aleatórias, porém com destino certo.

Os linchamentos não começaram agora. Sempre existiram, infelizmente, sob qualquer governo, sob qualquer condições. Uma das certezas que se pode ter sobre linchamentos é que atingem as pessoas mais pobres, como afirma a pesquisadora Ariadne Natal, do Núcleo de Estudos de Violência da USP (NEV-USP). Ela analisou 389 de linchamentos acontecidos na cidade de São Paulo e região metropolitana, entre 1980 e 2009. (O número refere-se aos casos analisados, portanto podem ser maiores, mas observem: a média é de 13 casos por ano nos 30 anos estudados, somente na região metropolitana de São Paulo, sob diferentes governos, tanto nas cidades como no país.)

A pesquisadora reconhece que “a tese da ineficiência do Estado é, portanto, um dos componentes que ajudam a explicar esses crimes. Mas há também a própria dinâmica das relações sociais nesses locais, onde as pessoas se conhecem e as informações transitam com maior facilidade” (grifei) . Ela diz ainda que o uso da violência para a resolução de conflitos é prática recorrente na sociedade brasileira. A pesquisado falou à Agência Brasil; vale a pena ler a reportagem.

Apesar da complexidade do assunto, com a ligeireza de quem participa de um linchamento, colunistas “de grife” e alguns jornais do “sul” culpam o PT e o governo pela morte da dona de casa. O jornal O Globo (editorial de 7/5), por exemplo, vincula o linchamento ao “péssimo exemplo dado por partidos políticos, do PT ao PSDB, pelo envolvimento de correligionários em casos de corrupção”. Porém, dá um jeito de jogar a maior responsabilidade na conta do Partido dos Trabalhadores: “O mau exemplo do PT chega a ser mais daninho, por ter conquistado o poder com a aura de extrema seriedade e honestidade. Ao trair as promessas de defesa intransigente da ética, dá grande contribuição, infelizmente, ao descrédito da população diante dos poderes constituídos”.

Por sua vez, militantes cegos da “esquerda” querem jogar a responsabilidade nas costas da jornalista Rachel Sheherezade, sobre a “imprensa burguesa” e na “direita”, de modo geral. Vejam o post do o ex-deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh no Twitter (6/5/): “Mulher massacrada no Guarujá por um punhado de celerados do Facebook é fruto da crueldade fascista de gente como essa Sheherazade”. Ainda que a jornalista tenha declarado ser “compreensível” fazer justiça com as próprias mãos – e mereça ser criticada por isso -, vai uma distância muito grande responsabilizá-la pela morte de Fabiane.

Poderia dar dezenas de outros exemplos, de um lado e de outro, porém creio que bastam os dois, representativos da desqualificação que se apodera dos contendores, com todos querendo apoderar-se do corpo supliciado de Fabiane para melhor servir a seus interesses políticos.

O que agem assim estão promovendo um segundo linchamento de Fabiane.

ÁRVORES
Tudo bem que se questione a implantação do binário, a demolição da Praça Portugal, etc. Mas até agora não entendi porque se exigiu o replantio das árvores retiradas das avenidas Dom Luís e Santos Dumont, caso que está virando um drama novelesco. A pergunta é: alguma dessas árvores é rara, alguma espécie corre risco de extinção? Caso contrário, porque o Termo de Ajustamento de Conduta do Ministério Público do Estado exige o replantio das árvores – boa parte delas visivelmente enfermiças e debilitadas – em vez do cultivo equivalente de novas mudas? MP, agrônomos, biólogos, ambientalistas, alguma explicação? (De preferência técnica, em vez de política.)

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