Plínio Bortolotti

Collor e o “divã selvagem” dos políticos

Reprodução da coluna “Menu Político”, no caderno “People”, edição de 18/5/2014, do O POVO.

Collor e o “divã selvagem” dos políticos
Plínio Bortolotti

Carlus

Arte: Carlus

Mais de vinte anos pós seu impeachment, o ex-presidente Fernando Collor de Mello, atualmente senador (PTB-AL) foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (SFT). Eram-lhe atribuídos os crimes de peculato, falsidade ideológica e corrupção passiva, porém a Corte Suprema não encontrou provas que pudessem condená-lo. Assim, pode-se dizer – mesmo tendo o impeachment transcorrido formalmente de acordo com as regras democráticas – que seu impedimento foi um ato meramente político.

Muitos agora – inclusive jornalistas – fazem reparos à atuação do noticiário durante o período, que teria significado um “julgamento midiático” para Collor, condenado-o à revelia de provas, com base apenas em um velho vício da imprensa pátria: o jornalismo declaratório, que, a propósito, continua a produzir aberrações.

No entanto, um dos primeiros a fazer essa análise de forma organizada foi o cearense Antônio Fausto Neto, doutor em Comunicação, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos-RS). No livro O impeachment da televisão – Como se cassa um presidente, editado em 1995 pela Diadorim, Fausto Neto defende que os “media” (jornalistas e meios de comunicação), “especialmente os televisivos”, construíram antecipadamente o impeachment de Collor.

Para ele a televisão toma para si o espaço do diálogo político, assumindo, como simulacro, o lugar do parlamento. “O setting televisivo é o lugar que se apresenta como instância que rouba do espaço parlamentar o papel de agenciador do debate dos problemas da sociedade”, tornando-se, dessa forma, uma espécie de “divã selvagem” dos políticos.

Fausto diz que o desenvolvimento das notícias deu-se mais pelo poder “autorreferenciador” da mídia do pelo “ideal” do jornalismo investigativo. Isto é, um noticiário referenciava-se em outro de modo circular, legitimando-se entre si e autoatribuindo-se uma “capacidade onipotente” que, nas palavras de um apresentador da TV da época, lhes daria o direito de “investigar a tudo e a todos”. Nesse quadro, diz o professor, os entrevistados (políticos e demais personagens) seriam joguetes que, a despeito do que falassem, eram “mostrados como figurantes a compor o ritual televisivo”.

Isso possibilitou, na visão de Fausto Neto, que se estabelecesse um maniqueísmo, cujo lado “bom” reunia jornalistas e a população, que procurava entender os “desvarios” do espaço parlamentar. Assim, o discurso jornalístico não se contentou mais em apenas descrever os fatos, mas também em “apontar a verdade deles”. Desse modo, a TV passa a “agendar a política” e agir como “grupo de pressão” e “finalmente, sentenciar processos”.

Para Fausto, foram esses os caminhos que selaram o destino do ex-presidente Collor, levando-o a sofrer o “impeachment da televisão”.

NOTAS

Análise do discurso
O professor Antônio Fausto Neto vale-se da teoria da análise do discurso para defender a sua tese, talvez a causa das discordâncias, entre concordâncias, que tenho com o estudo. Entretanto, para além de qualquer consideração, deve-se reconhecer-lhe o mérito de ter sido um dos pioneiros em apontar as rachaduras na cobertura do episódio.

Cobertura
Sem Internet, jornais, o noticiário noturno e revistas semanais competiam ferozmente para ver quem apresentava a denúncia mais bombástica – e eram esperados com ansiedade. Quem acompanhou o caso deve se lembrar o frêmito que cada “revelação” provocava. A catarse sobreveio quando o impeachment foi decretado.

Ética
Na conclusão do livro, Fausto Neto propõe que se reflita sobre os caminhos do jornalismo no “futuro” (no qual já estamos), tendo em vista a sua identidade, ética e, especialmente, sobre a “eficácia do seu lugar nas sociedades democráticas”. Olhando para publicações ligeiras e acusações fáceis que ainda se vê, pode-se dizer que o caminho a ser percorrido ainda é muito longo.

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