Plínio Bortolotti

Dínamo de Kiev: o time que enfrentou Hitler

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 1º/6/2014, do O POVO.

Arte: Carlus

Arte: Carlus

Dínamo de Kiev: o time que enfrentou Hitler
Plínio Bortolotti

Em período de Copa do Mundo, falemos de futebol (com política). Começo com uma história que sempre me impressionou, a do Dínamo de Kiev, durante a ocupação alemã da Ucrânia, na Segunda Guerra Mundial. Valho-me do livro Futebol & Guerra – Resistência, triunfo e tragédia do Dínamo na Kiev ocupada pelos nazistas, de Andy Dougan que, de quebra, ajuda a entender o que está se passando hoje na agitada história ucraniana. Fundado em 1927, o Dínamo de Kiev era um time do clube esportivo da polícia, que se tornou destaque mundial.

Em junho de 1941, Hitler inicia a operação Barba-Roxa, invadindo a União Soviética com com três milhões de soldados; Kiev, a capital da Ucrânia (então uma das repúblicas da URSS), cai nas mãos dos nazistas em setembro do mesmo ano. Os ucranianos, que já viviam oprimidos pelo regime stalinista, serão submetidos agora a horrores indizíveis. O cartão de visita da chegada alemã é a chacina de 30 mil judeus, enterrados nos arredores de Kiev.

No combate pela tomada capital ucraniana, a cidade ficara destruída, as indústrias desmanteladas e a produção paralisada. As forças de ocupação precisam pôr as coisas para funcionar novamente, principalmente a indústria de pão, para alimentar as tropas.

O ucraniano Joseph Kordic, diretor da principal padaria industrial da cidade, colaborador dos nazistas – e apaixonado por futebol – encontra, certo dia, um dos jogadores do Dínamo, perambulando miseravelmente nas ruas, e lhe oferece emprego. A partir daí, ele procura os demais jogadores, que estão vivendo precariamente, e os emprega em funções subalternas na indústria que dirige.

Sob a influência de Kordik, os alemães resolvem usar o esporte na tentativa de tornar a população kieviana, hostil ao invasor, mais colaborativa. Os alemães reabrem o campeonato da cidade e os jogadores do Dínamo organizam um time na padaria, a que dão o nome de Start (começo).

Em uma sequência espetacular, os esfarrapados rapazes do Start, mal alimentados, debilitados fisicamente, com fardas e chuteiras improvisadas, vencem de goleada todos os times que lhes surgem à frente, inclusive os alemães. O Start passa a ser visto como um símbolo da resistência, e começa a preocupar os nazistas, que procuram um modo de acabar com a fama da equipe.

Marcam um jogo com com o Flakelf, forte equipe da Luftwaffe, porém, o Start dá uma surra de 5 x 1 no time formado pela elite da força aérea alemã. Inconformados, as autoridades de ocupação determinam uma revanche para dali a três dias – e reforçam seu time mais ainda. A cidade fica eletrizada, a disputa ganhara caráter ideológico.

No dia da partida, reunidos no vestiários, os jogadores do Start sabem que uma vitória significaria punição violenta e até a morte para eles, principalmente depois que o juiz da partida, oficial da SS, entra nos vestiário, orientando-os a fazer a saudação nazista no início do jogo.

Entram em campo. O estádio lotado. Silêncio opressivo. Os jogadores alemães alinham-se levantam os braços e gritam a saudação nazista: “Heil Hitler” (salve Hitler). A equipe do Start, em seguida, repete o gesto, porém grita em uníssono: “Fizculthura” (uma saudação ao esporte). Foi o primeiro desafio. O jogo começa com os alemães cometendo faltas violentas, sem que o juiz se importe, e fazem o primeiro gol. Mesmo assim, o primeiro tempo termina em 3 x 1 para o Start.

No intervalo, outro oficial nazista vai ao vestiário e recomenda que percam o jogo. O Start volta, toma mais dois gols, porém faz outros dois. O jogo termina em 5 x 3 para o time de Kiev. Entretanto, a suprema humilhação para os alemães havia partido do mais jovem jogador do time, Klimenko: franzino, ele dribla toda a defesa alemã; para a bola em cima da linha; vira-se para o centro do campo, e põe a bola novamente em jogo, sem marcar o gol. O juiz encerra o jogo, a torcida, em êxtase, passa a provocar os alemães e é contida com violência pela polícia.

Os jogadores esperam pelo pior. Nos dias seguintes, todos são presos e enviados a um campo próximo a Kiev: três dos jogadores são executados com tiros na nuca, durante uma represália. Outro, que os alemães suspeitavam ser espião da NKVD (serviço secreto da URSS) já fora assassinado. Os demais sobrevivem.

Ao fim da ocupação de dois anos, em que 2/3 da população de Kiev pereceu, os jogadores foram considerados heróis. Até hoje a história é lembrada pelas novas gerações de jogadores. O feito dos rapazes do Start está eternizado em um monumento de granito, com três metros de altura, em frente ao estádio do Dínamo.

NOTAS

Confissão
Confesso a vocês, sou um brasileiro atípico, daqueles que não se importam com futebol (porém, nas pouquíssimas vezes em que fui a um estádio soube distinguir quem era a bola). Nesse aspecto, sou tão inocente, que torço para que todos os times cearenses, incluindo o Fortaleza e o Ceará – e principalmente o Ferroviário, cheguem à Série A do Brasileirão.

Dimensão humana
Entanto, gosto da dimensão humana do futebol, creio que é o esporte que melhor reflete os mais profundos aspectos da vida: paixões, alegrias, tragédias. Por isso, sou leitor do Serginho Rêdes e do Tostão, ambos colunistas deste jornal.

Homenagem
Asssim, meus amigos, em homenagem ao mundial de futebol, pela qual não vou me descabelar, porém me opondo à consigna “não vai ter Copa” – uma besteira, quando não uma reles vindita sem sentido – vou escrever outras histórias sobre o esporte bretão durante este mês.

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