Plínio Bortolotti

Futebol e ditadura: Nando, o jogador anistiado

Reprodução do artigo publico na coluna “Menu Político”, caderno “People”, do O POVO, edição de 8/6/2014

Arte: Carlus

Arte: Carlus

Futebol e ditadura: Nando, o jogador anistiado
Plínio Bortolotti

Se o futebol pode ser uma espécie de revanche dos oprimidos – a maioria dos grandes craques brasileiros tem origem das classes subalternas – o esporte também é usado como propaganda por governos e ditadores. A Copa de 1970, por exemplo, foi capturada pelos militares para ser apresentada como a contrapartida futebolística do “milagre” brasileiro. Foi nesse período que se desenrolou um drama – pouco conhecido – que tangenciou o Ceará, o estado e o clube de futebol.du

O caso foi descoberto por Mário Albuquerque, presidente da Associação 64/68 – Anistia. Verificando a documentação do período, encontrou a história do jogador Fernando Antunes Coimbra, o Nando, de uma família de seis irmãos, todos jogadores de futebol – entre eles Zico. Em 1968, Nando teve uma rápida passagem pele Ceará Sporting Club, time de coração de Mário e de sua família.

Nando tinha 18 anos quando foi admitido, por concurso, como professor do Plano Nacional de Alfabetização (PNA), programa do governo federal que utilizava o método Paulo Freire. A experiência durou poucos meses: o golpe militar de 1964 acabou com o PNA, o educador Paulo Freire foi preso (depois exilou-se), os professores foram demitidos e passaram a ser perseguidos. Na época, Nando jogava nos juniores do Fluminense, quando recebe convite para jogar no Santos, de Vitória (ES). Ficou até o técnico ser substituído por um oficial do Exército, que o dispensou imediatamente, no que ele identifica a primeira retaliação contra ele.

Em 1968, recebe convite para jogar no Ceará Sporting Club, por aqui vence o Nordestão (1969). Recebe uma proposta “vultosa” do Belenense e segue para Portugal. Em Lisboa, desentende-se com a direção do clube, que não quis pagar-lhe o prometido, e recebe uma “visita” de agentes da polícia política, que lhe recitam a sua ficha, certamente repassada por agentes brasileiros. Portugal vivia a ditadura de António Salazar.

Volta para o Rio de Janeiro. Corre o ano de 1970, quando ele é preso, juntamente com uma prima e o marido dela, ambos militantes políticos. Ele passa “uma noite de horror” no Doi-Codi (órgão da repressão da ditadura), obrigado a ficar “com a cara na parede e as mãos na cabeça, até de manhã”. É fichado como “subversivo” e libertado.

Ele suspeita que seu irmão Edu, artilheiro do campeonato brasileiro de 1968 (Taça Brasil), integrante da seleção que disputou a Copa Roca na Argentina e Taça Atlântico no Uruguai, tenha ficado fora da lista de convocado para a Copa de 1970 devido à perseguição à sua família. O mesmo teria acontecido com Zico, “titular absoluto” da seleção olímpica, mas que ficou fora do time convocado para ir a Munique (Alemanha). Nesse caso, o técnico da seleção olímpica, Antoninho, teria-lhe confirmado que recebera ordens de não convocar Zico, pois “um de seus irmão tinha sido preso”.

Em meados da década de 1970, Nando desiste da carreira de jogador. É reintegrado, como professor, ao Ministério da Educação (MEC) em 1992, tornando-se o primeiro jogador anistiado do país – e até agora o único caso conhecido.

Jogo na cadeia
Quem também conta uma boa história de futebol na ditadura é o próprio Mário Albuquerque. Preso na Cada de Detenção em Recife, uma das raras diversões era o jogo de futebol na penitenciária, do qual também participava o time invencível dos carcereiros e da direção do presídio – o Santa Cruz. Para levantar o moral dos companheiros, Mário traça uma estratégia: junta-se aos presos comuns e organiza um time – o Cruzeiro, que vai, aos poucos, ascendendo entre as equipes, ganhando todos os jogos. Até que é desafiado pelo time dos guardas.

No dia da partida, “a cadeia foi tomada por um clima misto de tensão e euforia crescentes”. As apostas estavam em 10 para um em favor do Santa. O Cruzeiro vence por 5 a 4, “enfrentando a violência dos adversários”. Mário afirma ter sido “o craque e o cérebro do time”. (A conferir:)

PS. Este artigo estava previsto para ser publicado no próximo domingo, antecipei-o em homenagem ao Ceará Sporting Club, na semana em que o clube completa 100 anos.

NOTAS

A camisa
Pedro Albuquerque, irmão de Mário, estava exilado no Canadá, quando recebe uma camisa do Ceará Sporting Club, assinada por todos os jogadores bicampeões em 1976. Na camisa, a dedicatória: “Um abraço do Serginho”, um dos craques do time, que vinha a ser o Serginho Amizade, hoje o sr. Sérgio Rêdes – colunista deste jornal -, que se encarregou de coletar as assinaturas para alegrar o exílio do amigo. Pedro diz ter ficado emocionado, e guarda a camisa até hoje (“modelo tradicional, com o número 9 em cor vermelha”), ainda com “as manchas do suor do jogador que a vestiu”.

Livro
Os depoimentos no qual fundamentei este artigo estão no livro Futebol e ditadura – A história de Nando, o primeiro jogador anistiado do Brasil, organizado por Mário Albuquerque, e editado pelo Centro Cultural Ceará Sporting Club. Mário foi preso e violentamente torturado durante a ditadura militar; três de seus sete irmãos passaram pelo mesmo suplício. Além dos depoimentos de Nando e Mário, o livro traz textos outros 13 colaboradores.

Lançamento
O livro Futebol e ditadura foi lançado quando Fernando Antunes Coimbra, o Nando, acompanhando de Zico, esteve em Fortaleza para receber homenagem na Assembleia Legislativa (junho de 2011), em evento organizado pela Associação 64/68. Eu estava lá, e colhi a dedicatória dos dos dois irmãos, que têm a caligrafia parecida.

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