Plínio Bortolotti

O primeiro Fla-Flu da história

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 15/6/2014 do O POVO.

Ilustração: Carlus

Ilustração: Carlus

O primeiro Fla-Flu da história
Plínio Bortolotti

Se hoje o futebol é uma unanimidade entre os brasileiros, nem sempre foi assim. A introdução do esporte no Brasil provocou um racha entre os intelectuais favoráves e contra a novidade importada da Inglaterra.

Alinhando-se contra estavam os escritores Graciliano Ramos e Lima Barreto, este um militante contra o jogo de bola, chegando a fundar uma Liga Brasileira Contra o Futebol (1919). A favor, os também escritores Olavo Bilac e Coelho Neto, este um ideólogo do novo esporte, tendo engalfinhado-se em feroz polêmica com Lima Barreto. Foi o primeiro Fla-Flu da história.

Em um texto carregado de ironia, Graciliano afirmou que o futebol não daria certo num país de seres “franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável” e sugeria a reabilitação dos esportes mais habituais aos brasileiros, “o porrete, o cachação, a queda de braço, a corripa a pé (…) e melhor que tudo, o cambapé, a rasteira. A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência”. E decretou: “O futebol não pega, tenham a certeza”.

É preciso lembrar que o futebol surgiu no Brasil como um esporte da elite branca; negros não eram admitidos nos clubes de futebol. No campeonato Sul-Americano de 1921, disputado na Argentina, o então presidente Epitácio Pessoa recomendou que não se incluíssem jogadores negros nos times, pois, disse ele, o Brasil precisava levar a imagem do “melhor da nossa sociedade” para o exterior.

Coelho Neto via o futebol como “instrumento de regeneração social”, um esporte que remetia aos princípios do “helenismo” e do “espírito olímpico” e que sua prática ajudaria a “criar uma sociedade na qual os homens, qual os esportistas, fossem adestrados pelo exercício físico, criando um tempo de paz e de harmonia e abrindo o peito para valores nobres de confraternização e integração social”.

Lima Barreto, ao contrário, considerava o futebol “uma escola de violência e brutalidade”, dentro e fora de campo, apontando para as brigas entre jogadores e a violência das torcidas, cujos frequentes confrontos deixavam feridos, terminando em tiroteio, em alguns casos. Para ele, um esporte desse tipo não levaria à fraternidade e à paz, pois fundamentava-se no elitismo, no sectarismo e na exclusão social.

Dizia ele também que, em vez de promover a união entre os brasileiros, separava-os, pois os clubes de futebol seriam “portadores de uma pretensão absurda, de classe, de raça”, pois os partidários do jogo entendiam-no como um esporte a ser praticado por “pessoas da mesma educação e cultivo”. O escritor também critica os “favores” e a subvenção que os clubes (já naquela época) recebiam dos governos.

Lima Barreto acertou em apontar algumas mazelas que permanecem até hoje: a violência das torcidas (dentro de campo foi controlada pelas regras e pelo rigor da arbitragem); o apoio (e a leniência com a má gestão) do poder público com os clubes. Quanto ao preconceito, se deixou de existir dentro do campo, continua a expressar-se fora dele, com os manifestações racistas de torcedores contra os futebolistas negros.

O que contraria a tese de Lima Barreto e de Graciliano Ramos é a avassaladora popularidade que o futebol alcançou, no que acertou Coelho Neto ao preconizar a sua disseminação. Porém, em contrário à sua premissa, que via o futebol como um fator de eugenia, que contribuiria para se chegar a de “raça superior” (isto é, branca e “educada”), tanto o país como os clubes de futebol caminharam em direção oposta – de uma sociedade cada vez mais miscigenada, em que esse fator passou a ser visto como uma vantagem.

Lima Barreto também não atentou para o fato que um instrumento dos dominadores pode, em muitos casos, transformar-se em arma nas mãos dos oprimidos. E foi isso o que aconteceu, a levar-se em conta o destaque que pretos, mulatos e mestiços alcançaram nos campos de futebol em todo o mundo.

NOTAS

O estilo do homem
Coelho Neto, o principal opositor de Lima Barreto, era um escritor de estilo gongórico. Veja como ele descreveu a construção do estádio do Fluminense: “Olhando o colossal Estádio do Fluminense, cujas escaleiras, com a alta muralha que as cinge, surgiram no curto espaço de três meses, por verdadeiro milagre de energia, ocorreram-me lembranças das descrições que li em Pansonias e em outros autores da vida na cidade da Hélida, comparável à que agora aqui levamos, durante a realização dos jogos agonísticos, abarrotada de forasteiros e sempre a receber vindiços que por falta de cômodos ficavam ao tempo, e por não caberem no Estádio e no Hipódromo contentavam-se em ouvir de fora as aclamações com que eram saudados os vencedores(…)”

Consultas
Para escrever o artigo consultei o texto O futebol: paixão e ódio, os literatos, duas cidades, de Mauro Rosso, autor de Lima Barreto Versus Coelho Neto – Um Fla-flu Literário (Difel) e a crônica de Graciliano Ramos publicada originalmente na coluna “Traços a Esmo” (1921), no jornal O Índio, de Palmeira dos Índios (AL), reproduzido no livro Linhas Tortas.

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