Plínio Bortolotti

Os Felipões e o jornalismo avestruz

Reprodução do artigo publicado na edição de 26/6/2014 do O POVO.

Arte: Hélio Rôla

Arte: Hélio Rôla

Os Felipões e o jornalismo avestruz
Plínio Bortolotti

Errar todo jornalista erra, um tropeção é quase inevitável no decorrer da carreira – e nenhum profissional pode ter sua vida julgada por isso. Entanto, chega a ser bizarro um jornalista experiente como Mario Sergio Conti ter caído em uma esparrela como a que caiu: entrevistou um sósia de Felipão e produziu um texto, publicado com destaque na Folha de S. Paulo e no O Globo, como se tivesse falado com o próprio Felipe Scolari, técnico da seleção.

Porém, o tema não é Conti. Quero lembrar uma “pegadinha” na qual caiu a imprensa cearense (este jornal incluído) e como os jornais se comportaram, verificados os respectivos erros.

Eu era ombudsman do O POVO (2006) quando o artista plástico Yuri Firmeza distribuiu informe à imprensa passando-se por um (inexistente) artista plástico japonês Souzareta Geijutsuka, que faria exposição no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Matérias foram feitas a respeito do vanguardista artista inventado.

Descoberta a farsa, O POVO sustentou o debate, abriu as páginas ao próprio Yuri, ao diretor do museu do Dragão (na época) Ricardo Resende – que ajudou a produzir a mentira, divulgando a falsa exposição -, e a quem mais quisesse debater o assunto, que rolou por vários dias em suas páginas. O próprio Resende elogiou a abertura, afirmando ter o jornal propiciado uma “discussão sobre a arte contemporânea”. A Folha e o Globo aproveitaram para publicar matérias irônicas, e sem ouvir ninguém da imprensa cearense.

E o que fazem agora esses jornais com a própria (e monumental) barrigada? Agem como avestruzes. Enterram a cabeça na areia: publicam um insatisfatório “Erramos” (idêntico nos dois jornais), subtraem vergonhosamente as páginas de seus portais – e ponto final. Por que não aproveitaram o episódio – como fez O POVO, com muita dignidade – para ampliar a visão de seus leitores sobre o fazer jornalístico?

PS. A quem interessar, a coluna que escrevi quando ombudsman, ver aqui.

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