Plínio Bortolotti

Futebol dos pretos

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 29/6/2014 do O POVO.

Arte: Guabiras

Arte: Guabiras

Futebol dos pretos
Plínio Bortolotti

A uma pergunta se já sofrera racismo, o mulato Neymar respondeu: “Nunca, nem dentro e nem fora do campo, mesmo porque eu não sou preto”. O jogador foi muito criticado por sua declaração, não derem nem mesmo desconto à sua juventude (na época com 18 anos), ainda deslumbrado com a fortuna que já ganhava, e falando de sua meta de ter “um Porsche e uma Ferrari na garagem”. (Nessa altura do campeonato ele deve ter alcançado o sonho ou talvez esteja preocupado com outras coisas.)

Mas o fato nu e cru é que Neymar tem razão. O racismo no Brasil reveste-se de característica singular: quanto mais um negro enriquece, torna-se famoso ou ascende na escala social, menos a sua cor tem importância. Neymar, portanto, não é preto; Neymar é… Neymar. Um pai racista odiaria ver sua filha namorando um preto, porém, ficaria orgulhoso ela se casasse com Neymar. Ou não?

Neymar faz parte de uma linhagem de jogadores de futebol que “perderam” a cor. No livro O negro no futebol brasileiro, Mario Filho conta que, quando o futebol começou a ganhar importância como esporte, mesmo a contragosto, os clubes começaram a admitir pretos em suas equipes. O Fluminense, um dos mais resistentes, também passou a fazê-lo, e os negros passaram a ter os mesmos privilégios dos atletas brancos.

Certo dia, um desses jogadores pretos, Robson, estava de carona no automóvel de um diretor do Fluminense, ao lado de outro jogador, Orlando. Era noite, o veículo transitava por uma rua mal iluminada. De repente, um casal de pretos, bêbados, aos beijos, surge em frente ao carro; o motorista freia bruscamente para não atingi-los. Orlando é projetado para a frente, bate violentamente a testa no pára-brisa, um galo sobe. Furioso, ele xinga:

– Seus pretos sujos!

Os amantes nem ligam e continua ziguezagueando em frente ao carro; Orlando, possesso com a folga dos dois, continua gritando, xingando. Robson intervém em favor do casal:

– Não faz, Orlando. Eu já fui preto e sei o que é isso.

Mario Filho interpreta: “(…) Robson não se sentia preto. Sabia apenas que tinha sido preto. Que nascera preto. Como podia ser preto se pertencia à família do Fluminense?” (Lembrando que o Fluminense era um clube da elite carioca da época e que o futebol, em seus primórdios, era um esporte de bem-nascidos, para gente de “boa família”, no qual os pretos não eram admitidos.)

No livro Mario Filho conta a história do futebol até meados dos anos 1950, mostrando como a sua estrutura elitista foi quebrada. E como os pretos – que eram proibidos de jogar nos times da elite – tornaram-se os “mestres”, “diamantes” e reis do futebol.

Jornalista esportivo, as fontes de Mario Filho foram jornais e documentos da época, mas, principalmente, depoimentos que ele mesmo colheu, tendo sido um dos precursores do recurso da história oral como instrumento de pesquisa. Por isso mesmo, o bom do livro são as histórias que ele conta, todas elas com profundo significado, como a do jogador Robson.

Até chegar ao momento atual, em que muitos futebolistas negros realçam as suas origens e encaram o racismo – como fez Daniel Alves, que comeu a banana que lhe atiraram no campo – os primeiros negros que ganharam destaque “fugiam da cor”. O caso, por exemplo, de Carlos Alberto, jogador do Fluminense, que se cobria de pó-de-arroz antes de entrar em campo, “ficando quase cinzento”. Ou de Friedenreich, o primeiro ídolo do futebol brasileiro, filho de alemão e mãe preta – mulato de olhos verdes – que ficava meia hora “amansando o cabelo” antes de cada partida.

O interessante é que Pelé, muitas vezes acusado de relevar a questão racial, é exaltado por Mario Filho como um militante vanguardista na sua época por não seguir essa “moda”. Manteve a carapinha para exaltar a família: “É preto como o pai, como a mãe, como a avó, como o tio, como os irmãos”. Para Mario, “Pelé fez questão de ser preto”.

NOTAS

Identidade
O negro no futebol brasileiro teve sua primeira edição em 1947, obra do jornalista e escritor Mario Filho (1908-1966), irmão do dramaturgo Nelson Rodrigues, que, creio, encontrou inspiração para criar o conceito de “complexo de vira-lata” neste livro. A obra tornou-se um clássico, que ajuda a compreender como se forjou a identidade brasileira.

Rebolo
A capa da quinta edição do livro reproduz um quadro do artista plástico Francisco Rebolo (1902-1980). Mostra um jogador negro driblando um branco, o próprio Rebolo, que atuou profissionalmente em vários clubes. Rebolo foi um dos pioneiros na luta para que o negro fosse admitido nas ligas oficiais de futebol. Ele afirmou, certa vez, que duranta toda a sua carreira nunca jogara com pretos nem contra pretos. “Só tinha colegas negros na várzea”.

Símbolos
Na década de 1930 dois jogadores pretos tornaram-se símbolos do futebol brasileiros e os de maior salário: Leônidas da Silva e Domingos da Guia. Eram de personalidades opostas: Leônidas, exuberante dentro e fora de campo, era o “Diamante Negro”; Da Guia, minimalista, contido, exato – era o “professor”, o “mestre”, um “doutor” em futebol.

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