Plínio Bortolotti

O Plano Real e o Bolsa Família

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 13/7/2014 do O POVO.

O Plano Real e o Bolsa Família
Plínio Bortolotti

Neste mês completam-se 20 anos do lançamento do real, a nona moeda desta terra brasilis, desde a sua independência, em 1822. Os réis já circulavam no Brasil colônia e foram mantidos com a independência, tendo sido trocados pelo cruzeiro, na década de 1940. Portanto, deve ter gente viva por aí que já viu passar pelas suas mãos todas as unidades monetárias que circularam pelo país.

A moeda em circulação atualmente surgiu a partir do Plano Real, criado com o objetivo de estabilizar a economia. Vivia-se o governo do Itamar Franco, vice de Fernando Collor de Mello, que assumiu a Presidência com a cassação deste. O plano foi comandado pelo ministro da Fazenda da época, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), eleito posteriormente devido aos efeitos do plano – e que daria continuidade à sua obra como presidente.

Quem já vivia conscientemente nessa época há de se lembrar da hiperinflação, que fazia um produto custar um preço pela manhã e outro à noite. Era hábito das famílias (que podiam) estocar alimentos em casa, de modo a fugir da alta constante dos preços. A inflação, nos meses que antecederam o real, estava a mais de 40% ao mês. A situação era um tormento para a indústria e para o comércio, porém, principalmente, para os mais pobres, que não tinham como se defender, como faziam os que podiam aplicar no “overnight” e faturar com o processo inflacionário. O Plano Real teve o mérito de derrubar a inflação para a casa de um dígito.

De início, o PT foi contra o Plano Real, classificando-o de “estelionato eleitoral”, como declarou o então presidente do partido, e candidato à Presidência da República (derrotado por FHC), Luiz Inácio Lula da Silva. Quando assumiu o comando do país, em 2002, Lula aproveitou-se do Plano Real e manteve os seus fundamentos, o que permitiu-lhe avançar em direção aos programas sociais implantados por seu governo.

Hoje, a narrativa do PT atribui ao governo Luiz Inácio Lula da Silva paternidade da estabilização da economia.

Bolsa Família
Em janeiro de 2004 o governo do presidente Lula lançou o programa Bolsa Família, que atualmente complementa a renda de mais de 14 milhões de famílias brasileiras. O Bolsa Família passou a ser estudado internacionalmente como uma forma efetiva de promoção dos pobres, sendo que vários países procuram implementar a mesma experiência.

Quando lançado, o PSDB manifestou-se frontalmente contra o programa. Um dos argumentos era o mesmo que Lula usara contra o Plano Real: o Bolsa Família seria “eleitoreiro”. Outro, foi manifestado por um dos próceres do PSDB, o senador Álvaro Dias (PR), temeroso de que o programa criasse uma legião de vagabundos: “(O Bolsa Família) mantém na miséria porque estimula a preguiça. Inclusive, há gente que não quer trabalhar porque não quer ter carteira assinada e perder o benefício”.

Havia ainda os que afirmavam que o valor oferecido era apenas uma “esmola”, como disse Arthur Virgílio, então senador pelo Amazonas, hoje prefeito de Manaus. A mesma terminologia foi usada pelo portal do PSDB (2004), que classificou o programa de “esmola presidencial” para praticar um “populismo rasteiro”.

Aos poucos, o PSDB foi mudando o discurso. Atualmente, o candidato do partido a presidente, Aécio Neves, é um dos maiores defensores do programa, com o que busca se aproximar das camadas mais pobres da população, antes vistas como “preguiçosas”. Aos poucos, medindo as palavras, o PSDB foi se afastando da rejeição inicial, passando a fazer críticas pontuais e, depois, apresentando propostas para “aperfeiçoar” o Bolsa Família. Aécio, senador da República por Minas Gerais, chegou a protocolar um projeto de lei para transformar o programa em “política de Estado”, ou seja, que teria de ser mantido independentemente do partido que assuma o poder.

Hoje, a narrativa do PDSB atribui ao governo de Fernando Henrique Cardoso a paternidade do programa Bolsa Família.

Feita a exposição, deixo a cargo dos leitores a finalização da coluna, buscando uma moral para a história.

NOTAS

Moedas
Moedas que já circularam no Brasil: réis (1500-1942); cruzeiro (1942-1967); cruzeiro novo (1967-1970); cruzeiro (1970-1986); cruzado (1986-1989), cruzado novo (1989-1990); cruzeiro (1990-1993); cruzeiro real (1993-1994) e real (desde 1º/7/1994).

Bolsa Família
O benefício pago pelo Bolsa Família é variável, de modo a garantir que todas as famílias brasileiras tenham renda mínima de R$ 77,00 por mês por pessoa. Com 14.145.274 famílias cadastradas, o cálculo é que o programa beneficie cerca de 50 milhões de pessoas.

1,99
O surgimento do Plano Real e o estancamento da inflação propiciou o surgimento e a disseminação das lojas de R$ 0,99; depois passaram a R$ 1,99. Ainda restaram algumas dessas lojas por aí?

Porta-moedas
Foi também por essa época que se tornaram populares os porta-moedas, pois os centavos passaram a ter valor. Muitos foram confeccionados por empresas como brindes de fim de ano.

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