Plínio Bortolotti

Onde estão os “indignados” de junho?

Reprodução da coluna “Menu Político”, publicada no caderno “People”, edição de 12/10/2014 do O POVO.

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Plínio Bortolotti

Com a rapidez com que as informações transitam as “jornadas de junho” do ano passado parecem já ter uma década. O movimento que pôs em xeque a política e os políticos, que levou os jovens “indignados” às ruas, exigindo uma “nova ordem”, arrefeceu. Isso não quer dizer que tenha morrido, movimentos assim parecem ser surpreendentes como terremotos, que nenhum aparelho consegue detectar com precisão.

Mas qual foi a influência de tão espetaculoso movimento na campanha presidencial, ora no segundo turno?

A sua consequência mais sentida foi que antigos políticos apensaram à sua propagada o verbo “mudar”: Dilma “Muda mais” e Aécio “Mudança de verdade”. Marina tentou capitalizar o sentimento das ruas falando em “nova política”, porém seu coque evangélico e sua resistência em aceitar comportamentos que, hoje, ousam dizer o nome, estavam muito distantes de uma juventude que convive naturalmente com com o amor entre iguais e arranjos familiares os mais diversos.

Luciana Genro, que abraça, sem embargo, causas “politicamente corretas”, mesmo negando, é também de um partido tradicional, por isso não escapou à pedreira crítica dos black blocs. E, anotem, se o Psol chegar ao governo nada fará nada de muito diferente do que faz, por exemplo, o PT – para o bem e para o mal. Vivemos em um mundo de predomínio capitalista; essa realidade costuma cobrar o seu preço, admitindo, no máximo reformas – e sob muita pressão. Para ir além disso, pelo menos na velocidade que os partidos (mais) à esquerda preconizam, seria necessário uma “revolução”. E, pelo menos os modelos vistos no século XX, desaconselham emulações.

Alguns analistas afirmam que as manifestações de junho não impediram, por exemplo, a votação expressiva de gente como Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Pastor Feliciano (PSC-SP), retrógrados ao ponto de terem como principal política a especulação sobre o que os outros fazem na cama. Mas fato é que também tiveram votação vigorosa, por exemplo, os candidatos Jean Wyllys (Psol-RJ) e Manuela d´Avila (PCdoB-RS), pregadores do liberalismo comportamental (não confundir comportamento com economia).

Continua portanto o mistério: onde se esconderam os ativistas de junho?

Em favor deles, é preciso lembrar que, exceto alguns poucos exemplos, o “mercado político” oferece poucas opções aos divergentes, portanto o eleitor é obrigado a votar no que se lhe dispõe à frente. Entre os presidenciáveis – e mesmo entre os candidatos proporcionais – quem poderia arvorar-se representante das jornadas de junho? Mesmo porque o movimento recusava a qualquer liderança.

Então, será que, a exemplo da Crítica Radical, os rebeldes resolveram recusar-se a comparecer às seções eleitorais, enquanto procuram um sítio nos arrabaldes – fora do eixo – para viver uma “sociedade sem dinheiro”?

No caso desse movimento de tão alta envergadura histórica, talvez valha lembrar a análise que o primeiro-ministro chinês, Zhou Enlai, fez a jornalistas, quando recebeu a visita do então presidente americano Richard Nixon, em 1972. Perguntado como via a Revolução Francesa (1789), ele deu amostra da pachorra chinesa: “Ainda é muito cedo para fazer uma avaliação”.

NOTAS

O fato e a versão
Durante muito tempo prevaleceu a versão de que Zhou Enlai se referia à Revolução Francesa, ocorrida mais dois séculos antes. Porém, depois ficou esclarecido ter-se tratado de um equívoco de tradução. Na verdade, a pergunta – e a resposta – referiam-se à agitação de maio de 1968, na França. Porém, como a frase era por demais interessante, perpetuou-se a versão e não o fato.

Imprima-se a lenda
Umas das cenas mais marcantes do filme O homem que matou o facínora brinca com situação parecida. Um velho senador conta a um jornalista que a sua carreira construíra-se sobre uma mentira: de que fora ele que matara um pistoleiro que aterrorizava a região. Autorizado a publicar, jornalista prefere abrir mão da história inédita, rasga suas anotações, e sai-se com esta: “Estamos no Oeste, senhor, quando a lenda torna-se realidade, imprima-se a lenda”.

Verdade?
O fato (ou a lenda) é tão verdadeira, que circula uma tradução diferente da frase: “Quando a lenda for mais interessante do que a realidade, imprima-se a lenda”.

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