Plínio Bortolotti

Vivandeiras alvoroçadas

Reprodução do artigo publicado na edição de 6/11/2014 do O POVO.

Arte: Hélio Rôla

Arte: Hélio Rôla

Vivandeiras alvoroçadas
Plínio Bortolotti

“Eu os identifico a todos. E são muitos deles, os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar.” Em linguaguem castrense/ cearense (observem o verbo “bulir”), foi assim que o marechal Humberto Castelo Branco manifestou-se em discurso, durante o governo de João Goulart, ironizando os civis que batiam às portas dos quartéis clamando por um golpe contra o presidente. (Como a história mostra, o próprio Castelo Branco sucumbiria aos ardentes desejos desses setores, tornando-se o primeiro governante da ditadura civil-militar.)

Pois não é que agora as vivandeiras estão se alvoroçando novamente – e fizeram da avenida Paulista, o “centro financeiro de São Paulo”, a passarela para desfilar o seu funesto canto?

Tenho para mim que o apelo por uma ditadura está mais no campo de estudo da psicologia do que da sociologia política. Peço até socorro ao psicanalista Valton de Miranda Leitão, colunista deste jornal, para ver se a minha conjectura faz algum sentido.

Somente uma criança, sentido-se perdida em um mundo que lhe parece enigmático e “perigoso”, clamaria por uma ditadura para pôr “ordem” nas coisas. Esse mundo complexo, múltiplo, diverso, que exige pessoas adultas para encarar os problemas, tem um nome: chama-se democracia. Uma ditadura dispensaria esse adulto infantilizado do ofício de pensar, de resolver as coisas por si mesmo, ou em conjunto com seus companheiros de jornada.

É por isso que esse ser infantilóide, acovardado frente às tarefas que o viver em comunidade impõem a todas as pessoas, vai “bulir com granadeiros”, em busca de um “pai”, de um “homem forte” (e armado), que possa poupá-lo de tomar suas próprias decisões – e arcar com as consequências. É uma utopia infantil, porém tenebrosa.
PS. Vivandeira: “Mulher que vende ou leva mantimentos, seguindo tropas em marcha”. (Michaelis)

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