Plínio Bortolotti

Nunca se pensou tão pouco

Artigo publicado na edição de 27/11/2014, no O POVO.

Hélio Rôla

Nunca se pensou tão pouco
Plínio Bortolotti

O grau de fundamentalismo no embate político chegou a tal nível que até pessoas com grau muito razoável de análise caem na armadilha do extremismo, a ponto de não mais diferenciarem a ironia – essa forma sofisticada de humor – da realidade.

Basta lembrar artigo em que escritor Antonio Prata “confessou” uma “Guinada à direita”, listando os piores preconceitos contra negros e homossexuais, como se concordasse com eles. Extremistas da direita, sem notar a ironia, enviaram dezenas de comentários ao autor elogiando a “coragem” dele em “assumir” tais opiniões. A coisa tomou tal rumo, que Prata precisou explicar que fizera uma brincadeira.

Distribuí, em lista restrita, artigo do empresário Ricardo Semler, com o título “Nunca se roubou tão pouco”. Presidente da Semco (produtora de equipamentos industriais), Semler diz que deixou de vender à Petrobras na década de 1970, pois tornara-se (e continuou) impossível fazê-lo sem pagar propina. Diz ainda que o monitoramento da corrupção mostra que 0,8% do PIB brasileiro é roubando, atualmente; índice estimado “na casa de 5%” há poucas décadas.

Na lista, recebi respostas criticando o artigo de Semler, como se ele estivesse minimizando os malfeitos do PT, comparado aos das décadas anteriores – mesmo o empresário declarando-se eleitor de Aécio Neves e filiado ao PSDB. Passou despercebido a ironia do título do artigo de Semler, pois o PT não foi eleito para “roubar menos”, mas para acabar com o roubo, como era seu discurso. (Assim, também não dá para entender porque tantos petistas se assanharam com o artigo.)

Em seu mais novo romance, A festa da insignificância, o escritor checo Milan Kundera conta que na União Soviética ninguém se atrevia a rir de uma piada do ditador Joseph Stálin. E põe esta fala na boca de um personagem: “Claro, pois ninguém sabia mais o que era uma brincadeira”.

Chegamos a esse ponto?
PS. Artigo de Semler; e de Prata, ambos na Folha de S.Paulo.

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