Plínio Bortolotti

Tudo o que você não queria saber sobre preconceitos

Reprodução do artigo publicado na coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 30/11/2014 do O POVO.

Guabiras

Arte: Guabiras

Tudo o que você não queria saber sobre preconceitos
Plínio Bortolotti

Na semana passada no artigo com o título Tudo o que você não queria saber sobre drogas, comentei o livro de Carl Hart, Um preço muito alto, no qual o neurocientista americano demole alguns mitos sobre as drogas e da imagem que se faz do consumidor eventual ou do “viciado”. Nesta coluna, volto a falar de outros aspectos da obra.

O livro é interessante também por mostrar a trajetória do autor, um jovem negro e pobre, criado nos guetos de Miami, que se torna professor de uma das universidades mais importantes do mundo – Columbia – e respeitado pesquisador, cujos estudos estão ajudando a redefinir a compreensão sobre as drogas.

Ele narra como a exclusão, o preconceito de cor e a perseguição policial contra jovens negros marcou a sua vida e como, pela educação, ele superou esses graves problemas. Hart defende a descriminalização das drogas, pois identifica na reclusão o princípio de um caminho que leva os jovens a crimes mais violentos, à ruína de suas vidas e dos que lhes são próximos – e, com muita frequência, à morte.

O que o levou a ter melhor sorte que seus “brothers” foi o acesso ao ensino universitário. Em 1996, Hart foi o único negro, em todo os Estados Unidos, a receber o título de doutor em neurociências.

Ele diz que os jovens que cometem delitos, mas não são pegos pela polícia, têm mais possibilidades de reconstruírem suas vidas – e se apresenta como exemplo. Apesar de cometer os mesmos crimes que os amigos, ele nunca foi apanhado pela polícia. Por isso, pôde agarrar as oportunidades que surgiram, inclusive o alistamento na Aeronáutica, o primeiro passo para que deixasse as ruas, o que lhe seria negado se tivesse ficha policial.

Hart não fica no exemplo pessoal; cita estudo canadense, realizado com 779 jovens de baixa renda de Montreal, acompanhados dos 10 aos 17 anos de idade. Os pesquisadores constataram que aqueles encarcerados na adolescência tinham 37 mais probabilidades de serem detidos quando adultos, comparados a outros, com crimes semelhantes, mas que não haviam sido apanhados pela polícia. Para ele, isso prova que a segregação dos jovens tende a agravar o comportamento criminal. Ele demonstra também que, nos Estados Unidos, os jovens negros têm mais do que o dobro de possibilidade de sofrer detenção do que os brancos. (No Brasil seria diferente?, talvez pior.)

Hart identifica na “guerra contra as drogas”, na presidência de George Bush, uma “investida contra os negros”, e lembra que as leis mais duras sobre o crack no período não levaram à prisão “nem um só branco” em Los Angeles, cidade com cerca de quatro milhões de habitantes.

Ao iniciar sua vida de estudante de nível superior, Hart diz que sabia apenas se expressar na “linguagem das ruas” e precisou se esforçar para superar suas desvantagens, e adquirir o “capital cultural” dos seus colegas brancos, “do tipo que é acumulado nos Estados Unidos quando se cresce na classe média ou alta”. Foi o recrutamento para a Aeronáutica que começou a mudar a vida dele, pois lhe abriu as portas da educação de nível universitário – um novo mundo.

NOTAS

Mestres
A importância de um bom mestre é confirmada por Carl Hart. Ele se mostra particularmente agradecido a dois orientadores, que viram a sua potencialidade, para além de suas aparentes deficiências.

Nas ruas…
Mesmo agradecido Hart não deixa de ser irônico com o mundo acadêmico. Diz que a “luta por status” na academia é pior do que vira nas ruas, com uma desvantagem para a universidade: no gueto “as regras eram mais evidentes e mais fáceis de seguir”.

…e na academia
“No mundo universitário, ninguém dizia as coisas na sua frente, era tudo muito dissimulado (…) ou explicado como ‘equívoco’ ou ‘falha de comunicação’”. Qualquer semelhança com as universidades brasileiras…

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