Plínio Bortolotti

O capitalismo contra o sono

Reprodução do artigo publicado na coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 14/12/2014, do O POVO.

CarlusO capitalismo contra o sono
Plínio Bortolotti

O meu objetivo nos artigos que escrevo é provocar nos eventuais leitores alguma reverberação. Modestamente, venho alcançando esse propósito. São comuns e-mails com comentários contestando, concordando ou ampliando os temas que exponho. Tanto é que tenho dois assuntos para dar sequência, devido à paciência de pessoas que se dão ao trabalho de ler e comentar o que escrevo: a questão dos impostos, devido ao artigo que escrevi para a editoria de Opinião, sobre a proposta de se voltar a cobrar a contribuição sobre movimentação financeira; e a respeito do artigo da semana passada nesta coluna. O primeiro assunto, talvez volte a ele, vou continuar hoje o tema que abordei em “Dormir é para os fracos”, no qual falei sobre artigo de Jonathan Crary para a revista piauí.

Publicado o texto, Haroldo Barbosa deixou uma mensagem no Twitter: “Dois artigos de perder o sono”, indicando os links para o meu texto e para outro, do teórico alemão, Robert Kurz, “Escravos da luz sem misericórdia”, publicado na Folha de S. Paulo (12/1/1997). No meu artigo, comento pesquisa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, empenhado em produzir uma droga para manter soldados até 15 dias acordados, agindo com eficiência.

Ao mesmo tempo eu estava lendo o livro Uma conspiração permanente contra o mundo, de Anselm Jappe, no qual ele explica as teses de Guy Debord, filósofo francês. A obra vem sendo divulgado em Fortaleza pelos integrantes do grupo Crítica Radical: Jorge Paiva, Rosa da Fonseca e Maria Luísa Fontenele, seguidores das teorias dos citados. O aviso de Haroldo, fez-me recorrer também ao livro de Kurz, O colapso da modernização (1991), no qual ele prevê, como já vinha fazendo desde a década de 1980 em artigos na Folha de S.Paulo, que a “sociedade da mercadoria” chegou ao seu limite, e só tem a oferecer ao mundo os seus horrores, seja no Oriente Médio, nas américas, nos países desenvolvidos da Europa, ou em qualquer esconso do mundo.

Em seu artigo “Escravos da luz…” Kurz fala do “infatigável ativismo da produção capitalista”, que não pode tolerar que nenhum tempo permaneça “escuro”, pois “o tempo da escuridão é também o tempo do descanso, da passividade, da contemplação”, e que o capitalismo requer “a ampliação de sua atividade às raias do esforço físico e biológico”.

Jappe, por sua vez, fundamentando-se em Debord, escreve: “Na economia capitalista, o tempo tornou-se uma mercadoria que, como todas as outras, perdeu seu valor de uso [desfrute] a favor de seu valor de troca [mercadoria]. O tempo irreversível e histórico só pode ser contemplado nas ações de outrem, mas nunca experimentado na própria vida”. Assim, escreve Jappe, reproduzindo Debord, para submeter os trabalhadores ao “tempo-mercadoria, a condição prévia foi a expropriação violenta de seu tempo”. Ou seja, além de expropriados dos meios de produção, os trabalhadores tiveram também roubado seu próprio tempo.

É assim que o círculo se fecha, nas palavras de Crary, quando ele diz que o sono é “uma das grandes afrontas humanas à voracidade do capitalismo contemporâneo”, pois: “O sono afirma a ideia de uma necessidade humana e de um intervalo de tempo que não pode ser colonizado nem submetido a um mecanismo monolítico de lucratividade, e desse modo, permanece uma anomalia incongruente e um foco de crise no presente global. Apesar de todas as pesquisas científicas, frustra e confunde qualquer estratégia para explorá-lo ou redefini-lo. A verdade chocante, inconcebível, é que nenhum valor pode ser extraído do sono”.

NOTAS

Fim da história
Diferentemente dos que declararam a vitória do capitalismo e o “fim da história” com a queda dos regimes comunistas na Europa oriental, Robert Kurz (1943-2012) viu no fenômeno o rompimento do elo mais fraco do “sistema produtor de mercadoria”, que o levaria fatalmente à bancarrota.

Titanic
Em O colapso da modernização, Kurz escreve: “Os passageiros do Titanic querem ficar no convés, e que a banda continue tocando. Se tivermos mesmo o ‘fim da história’, não será um final feliz”.

Para os fortes
Dormir é para os fracos; O sono acabou; Escravos da luz sem misericórdia.

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