Plínio Bortolotti

A mulher cordial

Reprodução do artigo publicado na coluna “Meu Político”, caderno “People”, edição de 15/2/2015 do O POVO.

Carlus.1A mulher cordial
Plínio Bortolotti

Na recente disputa para eleger o novo presidente da Câmara dos Deputados, os candidatos agiram como se estivessem em uma eleição, digamos, normal, aquela em que os postulantes têm de correr atrás dos eleitores, espalhados pelos mais diversos recantos. E foi o que fizeram, apesar da concentração de seus eleitores em um único local, a Câmara dos Deputados, em Brasília.

Uma dessas atividades foi um “chá” reunindo o candidato do PMDB, Eduardo Cunha (que foi eleito) e mulheres de deputados. E o que lhe pediram as simpáticas senhoras? Que ele, como presidente da Câmara, voltasse a incluir a previsão da passagens áreas na verba de gabinete, de modo que elas pudessem usufruir do benefício. Uma das participantes do sarau reclamou do “sacrifício” que é ser mulher de deputado e como é “difícil” ficar longe do marido. É claro, que com tantas ocupações, a excelentíssima esposa deve ter-se esquecido de que o marido já tem cota de passagens aéreas para uso próprio, além de residência funcional em Brasília ou auxílio moradia.

Estado e família
Em seu ensaio O homem cordial, Sérgio Buarque de Holanda afirma que o “Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas (…) não existe, entre o círculo familiar e o Estado uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição”.

Porém, no Brasil “onde imperou, desde os tempos remotos, o tipo primitivo de família patriarcal (…) não era fácil aos detentores das posições públicas de responsabilidade, formados por tal ambiente, compreenderem a distinção fundamental entre os domínios do privado e do público”. Isso, segundo o historiador iria provocar desequilíbrios sociais “cujos efeitos permanecem vivos até hoje”.

Para esse tipo de funcionário que não distingue o privado do público (patrimonialismo), “a própria gestão pública apresenta-se como assunto de seu interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que dele aufere relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como sucede no Estado burocrático”.

Do coração
É a esse traço da cultura que faz Buarque de Holanda chamar o brasileiro de “o homem cordial”, pelo sentido etimológico da palavra, isto é, aquele que decide “pelos laços de sangue e de coração”, em favor de amigos, agregados e parentes. Para isso, ele abdica da razão, que o manda, como servidor público, em nome do Estado, a agir de modo impessoal.

Mesmo anotando que “a lanheza no trato, a hospitalidade, a generosidade” são “virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam”, Buarque de Holanda ressalva que seria enganoso supor que esses atributos signifiquem “civilidade”. Para ele, tanto a amizade quanto a inimizade são “cordiais”, pois ambas “nascem do coração”. Ou seja, o homem cordial, não se caracteriza, fundamentalmente, por ser alegre, hospitaleiro, receptivo, mas pelas características demarcadas acima, a de ver o Estado como um prolongamento da família, a serviço de seus interesses particulares.

Pena que Sérgio Buarque de Holanda não possa comentar o chá das mulheres preocupadas com o distanciamento de seus maridos deputados. Ele poderia criar outra classificação: a mulher cordial.

NOTAS

É hoje
Sérgio Buarque de Holanda escreveu o ensaio em 1936, mas parece que foi ontem, ou hoje.

O filho
A música Fado tropical, de Chico Buarque, filho de Sérgio, é bom exemplo de como age o “homem cordial”, trecho: “Sabe, no fundo eu sou um sentimental./ Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)./ Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar,/ o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

Cachorrinho
A “cordialidade”, no Brasil, não é característica somente do político. Por exemplo, muita gente vê o espaço público como extensão de própria sua casa, jogando lixo pela janela do carro, ou quando leva o cachorrinho para “passear” sem preocupar-se em recolher a sujeira que o bichinho deixa para trás.

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