Plínio Bortolotti

Dilma: odiada pela oposição e mal amada pelos aliados

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Reprodução do artigo da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 22/3/2015 do O POVO.

CarlusDilma: odiada pela oposição e mal amada pelos aliados
Plínio Bortolotti

Estive na manifestação do dia 15/3/2015, na Praça Portugal. Não vou entrar na batalha dos números: cada um terá uma contagem para chamar de sua, seja aqui ou alhures. O que vi foi uma Praça Portugal lotada, transbordando para os ruas vizinhas. (Creio que nem precisava dizer, mas compareci – a exemplo das manifestações de 2013 – como observador, jornalista.)

Números são de menor importância, quando se sabe que mobilizações relevantes foram realizadas nas principais cidades do país. Os adversários (talvez o mais adequado fosse “inimigos”) do governo Dilma Rousseff e do PT marcaram um tento importante. Se bem me lembro, desde a redemocratização (que completou trinta anos) o monopólio das ruas era da esquerda; agora não é mais.

Os protestos foram organizados por gente que sempre odiou o PT, mas destilava seu ódio de forma específica: contra as políticas de promoção social, como o bolsa família; criticando as cotas; revoltando-se com a garantia de direitos mínimos para as empregadas domésticas; e horrorizando-se quando obrigada a conviver com gente simples nos saguões de aeroportos.

Mas faziam isso à boca pequena, ou protegidos pelas redes sociais, pois sabiam haver grande número de pessoas que poderia confrontá-los, sendo impossível organizar manifestações populares na base desses preconceitos. A pergunta é: por que, esses setores conseguiram reunir tanta gente se, antes, eram obrigados a ficar vociferando na encolha?

A resposta está nos erros que o próprio Partido dos Trabalhadores cometeu durante o tempo que o eleitor lhe deu para mudar o país. Uma análise superficial mostraria que as políticas do governo Lula já haviam batido no teto quando Dilma assumiu o primeiro mandato. Entanto, a presidente deixou que a força da inércia, resultante da política anterior, comandasse o seu governo. (Sem contar que o PT, de partido “diferente”, ganhou o carimbo da corrupção, o mesmo que carimbava nos outros.)

Para atender ao desejo de mudança, em seu primeiro mandato, a presidente teria de ter iniciado o aprofundamento das políticas de inclusão iniciadas pelos governos Lula. Para isso, seria necessária coragem para bulir com os rentistas e os muito ricos – e seus aliados na política. Mas ela optou por navegar na herança lulista, que já estava com o prazo de validade vencido. No segundo governo, acossada pelos problemas, só lhe restou abraçar um programa parecido com o do PSDB – que o PT sempre classificara de “neoliberal”.

Assim, a presidente abriu mão do papel de estadista – talvez pensando na reeleição – e deixou de investir em políticas que poderiam transformar o Brasil em um país menos desigual. Portanto, o protesto pode ter sido organizado pelas “elites”, porém o descontentamento com o governo Dilma vai além dos endinheirados e de um certo segmento da classe média que sempre amou odiar o PT.

A prova é que nas manifestações de 13/3/2015, militantes sindicais defenderam a presidente contra o impeachment, porém atacaram a sua política econômica. Junte-se a esses ingredientes um amplo setor da esquerda desiludida com o PT, e daqueles beneficiados com políticas sociais, que não veem novas perspectivas. São segmentos que não se animam a sair de casa para defender o governo petista.

Dessa forma, Dilma continuou a ser odiada pela oposição e passou a ser mal amada pelos aliados: o pior dos mundos.

NOTAS

Farda
Na manifestação de Fortaleza não houve clamor explícito por um golpe militar. No restante do país, a algazarra pela volta dos militares foi mais intensa. É uma obsessão das almas frágeis: buscam, na farda, o “homem forte”.

Fixação
Creio que somente Freud explicaria a fixação dos manifestantes anti-PT contra Cuba e Venezuela. Em Fortaleza, o clímax de algumas falas era o ataque aos dois países, quando um frêmito percorria o público.

Perigo vermelho
Será que esse povo é tão tapado a ponto de não perceber as diferenças – política e econômica – existentes entre o Brasil e esses países? Ou pensam assustar criancinhas brandindo os espantalhos do “comunismo” e do “bolivarianismo”? Senhores, o “perigo vermelho” vem da China – um país que ruma para ter uma economia maior do que a americana, se já não a tem.

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