Plínio Bortolotti

Os “Gladiadores do Altar e o general de Deus”

Coluna “Menu Político”, publicada no caderno “People”, edição de 5/4/2015, do O POVO.

CarlusO general de Deus
Plínio Bortolotti

Eu não sei vocês, mas eu fiquei temeroso quando vi o vídeo dos “Gladiadores do Altar”, o grupo de jovens da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), marchando militarmente, templo adentro, camisas verdes, batendo continência, “prontos para a batalha”, respondendo em uníssono ao juramento gritado pelo pastor-sargentão: “O que os gladiadores querem?”, a tropa responde: “O altar, o altar, o altar”. Estão a serviço de Deus, certamente. Coisas assim não costumam terminar bem: grupos paramilitares, mesmo seus arremedos, são perigosos, e quando se acham proprietários da Verdade, pior ainda. Os “gladiadores”, jovens até 26 anos, são cerca de quatro mil em todo o país.

A tropa evangélica me fez lembrar de postagem em meu blog (2009),em que comentei o livro do bispo Edir Macedo, o general da Iurd, lançado no ano anterior (coincidentemente período eleitoral): Plano de poder – Deus, os cristãos e a política. Na obra, Macedo não esconde ter um projeto para tomar o poder, em nome de Deus, por óbvio.

O bispo, explica didaticamente ao fiéis como pretende atingir o seu objetivo: “Vamos nos aprofundar, através desta leitura, no conhecimento de um grande projeto de nação elaborado e pretendido pelo próprio Deus [ele sabe o que quer o Senhor] e descobrir qual é a nossa responsabilidade neste processo. (…) Desde o início de tudo, Ele nos esclarece de sua intenção de estadista e de formação de uma grande nação”.

Macedo apela diretamente aos cerca 40 milhões de cristãos brasileiros (excluídos os católicos) para lhes dizer que devem entender a bíblia não apenas como um livro religioso, mas também como uma espécie de “manual” de ação política, escrito pelo maior dos estadistas: Deus.

“[A Bíblia] não se restringe apenas à orientação da fé religiosa, mas também é um livro que sugere resistência, tomada e estabelecimento do poder político ou de governo (…) Quando todos ou a maioria dos que a seguem estiverem convictos de que ela é a Palavra de Deus, então ocorrerá a realização do grande sonho Divino”.

Ou seja, para o bispo, o “sonho” do Todo Poderoso é tomar o poder no Brasil.

Para o chefe da Iurd, a “mobilização geral” dos evangélicos, com sua “potencialidade numérica” pode “decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo quanto no Executivo, em qualquer escalão, municipal, estadual ou federal”. E seguem orientações práticas de como os “cristãos” devem proceder para eleger os seus, os “escolhidos” de Deus.

Um dos capítulos do livro é dedicado ao “agente apropriado” para assumir o poder. Lendo-o, observa-se que Macedo vê ele mesmo como o sujeito que deve cumprir esse papel, em nome de Deus, e seguindo a vontade Dele, claro.

A comparação entre os “cristãos” (os da Iurd) com os hebreus, escravos no Egito, e libertados por Moisés, perpassa todo o livro. “Até porque temos percebido, por parte da sociedade, que ser evangélico no Brasil ainda é como ser estrangeiro no Egito nos dias do Faraó”, escreve Macedo, apresentando-se como o novo profeta libertador.

Ligando uma coisa a outra é de se perguntar se os “Gladiadores do Altar” fazem parte da tática para que o objetivo estratégico de Macedo seja alcançado. Sem esquecer que o uso de grupos paramilitares para atacar adversários e inimigos foi um dos mais importantes meios para que o partido nazista chegasse ao poder na Alemanha.

NOTAS

Religiões afro-brasileiras
Representantes de religiões afro pediram investigação sobre o grupo Gladiadores do Altar ao Ministério Público Federal. As religiões de matriz africana são regularmente atacadas e vilipendiadas pelos neopentecostais da Igreja Universal. Seria saudável para a democracia se tal investigação fosse à frente.

Camisa verde
Os participantes da Ação Integralista Brasileira (o fascismo tupiniquim), atuante na década de 1930, ficaram conhecidos “camisas-verdes”, devido à cor dessa peça do uniforme.

Record
O bispo Macedo é dono da Rede Record; segundo o portal Donos da Mídia, é o quarto grupo de comunicação do país, com 142 veículos ligados à rede, vice-líder em audiência em todo o Brasil. Vídeos dos “gladiadores”.

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