Plínio Bortolotti

Os homens que amavam os cachorros – e a revolução

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 12/4/2015 do O POVO.

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Plínio Bortolotti

A admirável a trajetória de Leon Trotski, o líder da Revolução Russa, que rivalizava com Lênin em elaboração política e popularidade, está bem representada na mais completa biografia escrita sobre sobre ele, pelo polonês Isaac Deutscher. Na obra, Deutscher revela várias passagens impressionantes na vida de Trotski; uma delas, talvez por insólita, me ficou na memória. Quando começou a ser defenestrado do partido Partido Comunista pelo seu maior inimigo, Joseph Stálin – que se transformaria no dirigente supremo da União Soviética -, Trotski demostrava a sua contrariedade (e arrogância) lendo romances franceses durante as reuniões do Comitê Central, instância máxima partidária.

O polonês Deustscher, apesar de simpatizante, expôs as complexas contradições do criador do Exército Vermelho na trilogia “O profeta armado”, “O profeta desarmado” e o “Profeta banido”, que dão conta da trajetória de Trotski, desde o seu nascimento, até que Ramón Mercader enterra-lhe uma picareta de alpinista na cabeça, pondo fim à sua vida, em 1940.

Interessado na vida de Trotski, li várias coisas sobre ele, porém, seu assassino sempre me parecia uma sombra. O pouco que sabia é que era um espanhol, militante do Partido Comunista, e agente da polícia secreta soviética. No livro lançado há pouco no Brasil, “O homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Padura, Mercader aparece de corpo inteiro, um sujeito bem mais complexo que uma simples mão assassina a serviço do Kremlin, ainda que também assim tenha sido. O livro é uma ficção, porém, os personagens surgem com os nomes verdadeiros, e os fatos narrados são reais, e bem conhecidos, tendo gerado toneladas de papéis impressos e discussões intermináveis.

Além do ótimo texto e da sacada literária da narração paralela das vidas de Trotski e Mercader em terceira pessoa – a cada vez o narrador adotando o ponto de vista do personagem em cena -, Padura oferece ainda uma visão da sufocante Cuba dos anos 1980 e dos padecimentos materiais da ilha caribenha, que se agravaram com a queda do Muro de Berlim. É em Cuba que o narrador conhece Mercader, cuja aproximação se dá por meio dos dois belos cães borzóis que o espanhol leva a passear na praia. É o interesse por cachorros -Trotski também os amava – que ajudará Mercader a se aproximar de sua vítima.

Ramón Mercader inicia a trajetória, que levaria a vida dele a cruzar tragicamente com a de Trotski, quando a sua tirana mãe – agente da polícia secreta soviética – vai buscá-lo nas trincheiras da guerra civil espanhola para iniciar o treinamento que o transformaria de homem interessado em contribuir para a criação de uma “nova sociedade” em assassino frio, com um único propósito na vida: matar Leon Trostki, para o bem da revolução comunista, conforme lhe enfiara na cabeça a azeitada máquina stalinista de moer mentes e gente.

Nesse percurso, Ramón Mercader, assumirá a personalidade fictícia do belga Jacques Mornard, e de romântico militante comunista vai se tornar um descrente, um cínico, que não acreditará em mais nada, passando a odiar o mundo e a si próprio. E, por fim, Mercader cumprirá seu destino, não mais como sacrifício em nome do proletariado mundial, mas como alguém que precisa apenas se livrar de um fardo.

NOTAS

Nome
O nome real de Trotski é grafado no livro “O homem que amava os cachorros”, como Liev Davidovitch Bronstein. Mas, devido à transliteração do idioma russo também é usado no Brasil “Leon” (mais comum) ou “Lev”.

Orelha
O livro, da editora Boitempo, tem 589 páginas de boa literatura. A orelha do livro avisa não ser necessário conhecer a vida de Trotski ou a história da Revolução Russa para gostar do livro. É fato, mas conhecendo-se, pelo menos um pouco, aproveita-se melhor o livro.

Vidas
Além das duas vidas, o narrador conta também a sua, em Cuba, transformando o apartamento em ruínas em que mora em uma metáfora da ilha. Um dos aspectos mais tocantes é quando conta a perseguição que move o regime castrista ao seu irmão, estudante de medicina, obrigado a abandonar o curso quando descobrem sua homossexualidade.

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