Plínio Bortolotti

A história, essa velha senhora, ensina alguma coisa?

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 18/10/2015 do O POVO.

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Plínio Bortolotti

O argumento mais comum para defender a importância de recuperar fatos do passado – como os documentos da ditadura brasileira, por exemplo – é um suposto “aprendizado” que isso traria para as novas gerações: e para as antigas, que desconhecem mais amplamente o assunto. Supõe-se, portanto, ser possível “aprender com a história”, e que isso evitaria o cometimento dos mesmos erros.

Conversando dia desses com uma amiga do jornal, disse-lhe que duvidava desse qualidade professoral atribuída à história. Ela sorriu, não sei se por concordância ou discordância, mas passou a exagerar quando o assunto volta à baila: “O Plínio diz que ninguém aprende nada com a história”.

O primeiro problema nesse “aprender com a história” é que seria necessário obter amplo acordo para definir o que é “certo” e o que é “errado”, pois, nessa visão, o aprendizado servira para se evitar os equívocos dantes cometidos.

E daí vem a minha primeira implicância, pois se supõe que, conhecendo o “mal”, os indecisos e os ignorantes seriam iluminados aderindo ao “bem”. Porém, infelizmente, até o mal absoluto – o nazismo, por exemplo – encontra defensores. No Brasil, não estamos vendo gente nas ruas exigindo a volta da ditadura e lamentando que os déspotas não tenham dado cabo de todos os opositores do regime militar? Acreditar que gente dessa qualidade – por mais que conheça a história e seus horrores -, vá aderir ao lema “paz e amor” ou à democracia, é acreditar em conto de fadas.

(Esperar que a história ensine alguma coisa a alguém equivale ao pai que acha que pode passar, por osmose, a sua “experiência” aos filhos. Cada geração tem a sua própria forma de ver as coisa, normalmente em confronto com a anterior. Se isso é bom ou ruim, a conferir. A geração yuppie, por exemplo, foi filha da geração anterior, os hippies, com valores absolutamente confrontantes.)

Essa reflexões me vieram a propósito de notícias que li a respeito de um filme alemão Look who´s back (“Olhe quem está de volta”), adaptação de um romance satírico de Timur Vernes, que vendeu mais de um milhão de exemplares na Alemanha. No livro, Hitler acorda nos tempos atuais, torna-se celebridade e volta à política. Vernes disse ter escrito a obra para criticar o que ele classifica como complacência dos alemães com o nazismo.

E essa “complacência” parece ter sido verificada pelo ator Oliver Masucci, que representa o papel principal na película. Vestido como o personagem, ele viajou por quatro semanas pelo país, “sorrindo aos cidadãos e afagando seus bichos de estimação”. Ele disse ter ficado “chocado” com a calorosa recepção que recebeu de muita gente.

“As pessoas se esqueceram rapidamente que as câmeras estavam rodando e começaram a falar com o homem (o suposto Hitler), a se abrirem para ele” disse Masucci. O ator ouviu críticas a estrangeiros, foi alvo da saudação nazista, e muita gente assumia postura militar à sua passagem. O diretor do filme, David Wnendt, admirou-se: “Como pode ser que tantas pessoas aceitem e reajam positivamente a Hitler?”

E isso tudo, apesar dos esforços dos governos alemães, após a Segunda Guerra, para extinguir qualquer traço da ideologia nazista na Alemanha.

A pergunta é: as pessoas aprendem alguma coisa com essa velha senhora, chamada história? E se aprendem, aprendem o quê?

NOTAS

Hippies e yuppies
Os yuppies, derivado do acrônimo YUP (jovem profissional urbano, em inglês) caracteriza um segmento da geração de jovens dos anos 1980: individualistas, conservadores e apegados a bens materiais – o oposto de geração precedente, os hippies.

Alemanha
No país onde medrou um dos maiores horrores do século XX, o nazismo, aumenta o ódio a estrangeiros. Thomas Maizière, ministro do interior alemão, se diz preocupado com o “radical aumento de agressões xenófobas” contra refugiados, que pedem asilo no país. Dois terços dos ataques são praticados por pessoas que, até o momento, não haviam cometido nenhum delito. Ou seja, é o famoso “cidadão de bem”.

Crédito
A informações a respeito do filme, citadas no texto colhi, na agência Reuters: Alemães recebem calorosamente ator que se faz passar por Hitler; e na página da Deutsche Welle: E se Hitler acordasse nos dias de hoje?

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