Plínio Bortolotti

Aprendendo com as histórias

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 1º/11/2015 do O POVO.

CarlusAprendendo com as histórias
Plínio Bortolotti

Tenho o privilégio de ser um dos interlocutores de Cláudio Ferreira Lima, integrante do Conselho Editorial do O POVO, economista de ampla cultura, com o pensamento e a ação voltados para os problemas cearenses e nordestinos. Cláudio é um tipo tranquilo, que nos ensina como se estivesse ele mesmo aprendendo conosco, pois evita exibir erudição, de que muito dispõe.

Sobre meu artigo “A história, essa velha senhora, ensina alguma coisa?” (18/10/2015), ele me envia algumas considerações, que vou transformar na coluna de hoje.

A partir daqui, escreve Cláudio Ferreira Lima:

A respeito do seu artigo – “A história, essa velha senhora, ensina alguma coisa?” –, lembrei-me de Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, ou Discorsi, do mestre Maquiavel (Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1979, pp. 17-18).

Pois bem: logo na Introdução, o secretário florentino fala do espanto quando considera, “de um lado, a veneração que inspiram as coisas antigas (…); de outro, os atos admiráveis de virtude que a história registra, nos antigos reinos e repúblicas, envolvendo monarcas, capitães, cidadãos, legisladores, todos os que trabalharam pela grandeza da pátria. Atos mais friamente admirados do que imitados (…)”.

Mas, diz ele, com maior espanto ainda, vê “que, nas causas que agitam os cidadãos e nos males que afetam os homens, sempre se recorre aos conselhos e remédios dos antigos”. Isso acontece nas leis, na medicina. “Contudo, quando se trata de ordenar uma república, manter um estado, governar um reino, comandar exércitos e administrar a guerra, ou de distribuir justiça aos cidadãos, não se viu ainda um só príncipe, uma só república, um só capitão, ou cidadão, apoiar-se no exemplo da Antiguidade”.

Por quê? Para ele, a causa reside, sobretudo, “na ignorância do espírito genuíno da história. Ignorância que nos impede de aprender o seu sentido real, e de nutrir nosso espírito com a sua substância”. Desse modo, “os que se dedicam a ler a história ficam limitados à satisfação de ver desfilar os acontecimentos sob os olhos sem procurar imitá-los, julgando tal imitação mais do que difícil, impossível. Como se o sol, o céu, os homens e os elementos não fossem os mesmos de outrora, como se a sua ordem, seu rumo e seu poder tivessem sido alterados”.

Portanto, para salvar os homens desse erro, resolveu fazer “a propósito de cada um dos livros de Tito Lívio que resistiram à injúria do tempo, uma comparação entre fatos antigos e contemporâneos, de modo a facilitar-lhes a compreensão”. Dessa forma, os seus leitores “poderão tirar daqueles livros toda a utilidade que se deve buscar no estudo histórico”.

Mas, Paul Valéry (Régards sur le monde actuel. Paris: Gallimard, 1945, p. 43), intelectual igualmente respeitado, que também se debruçou sobre a história, afirma que a velha senhora justifica tudo que quer. Ela não ensina rigorosamente nada, porque ela contém tudo, e dá exemplos de tudo. E completa: “Quantos livros foram escritos sob o título ‘A lição disto, os ensinamentos daquilo!…’ Nada mais ridículo para ler após os acontecimentos que se seguirem aos acontecimentos que esses livros interpretavam dentro de uma visão de futuro”.

Enfim, acredito que, como nos ensina Aristóteles, a virtude deve estar no meio.

De todo modo, fiz essas observações mais com o intuito de enaltecer esse seu trabalho de sempre desafiar os seus leitores com questões de fundo, tirando-os do marasmo intelectual a que estão sujeitos pela forma predominante de jornalismo que se pratica nos tempos presentes.

NOTAS

Ganhei a semana
Para concluir, só digo o seguinte: ganhei minha semana por dois motivos: a) pelo elogio em si; b) o Cláudio fez o favor de escrever a coluna por mim. : )

Florença
Nicolau Maquiavel (1469-1527) tornou-se famoso pelo clássico O príncipe, considerado marco inaugural da ciência política no mundo. Ele também é conhecido como “o florentino”, por ter nascido e atuado politicamente em Florença (Itália).

Roma
Tito Lívio (59 a.C-17 d.C), filósofo e historiador. É autor de uma monumental obra sobre a história de Roma, iniciando-se por sua fundação até o início da era Cristã.

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