Plínio Bortolotti

O papel das TVs na eleição do Rio de Janeiro

Com esta coluna  “Política” – reprodução da edição de 3/11/2016 do O POVO -,  inicio minha substituição ao titular Érico Firmo, que está de férias.

O papel das TVs na eleição do Rio de Janeiro

Depois da refrega no Rio de Janeiro, na qual o bispo “licenciado” Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), foi eleito prefeito da cidade, as entidades que representam a chamada grande mídia talvez revejam a sua violenta negativa de sempre opor-se à regulamentação dos meios de comunicação.

RECORD
O PRB de Crivella é o único partido brasileiro que tem, por meio da Iurd, uma rede de televisão, a Record – a segunda mais importante do Brasil – e dezenas de rádios para fazer propaganda de seus candidatos o ano inteiro, burlando a legislação eleitoral. Sem contar os generosos espaços que os evangélicos compram em outras emissoras.

Uma regulamentação bem feita teria proibido que confissões religiosas, qualquer uma, se tornassem concessionárias de meios de emissoras de rádio e TV e também impediria a compra de horários por pastores das mais diversas denominações. Rádios e TVs são concessões públicas – e não é razoável que subloquem espaço nas emissoras, das quais são apenas concessionários e não donos.

DISPUTA
A disputa da Rede Globo com a Record chegou ao ponto de a emissora do Jardim Botânico tomar-se de simpatias por Marcelo Freixo, do inimigo Psol, para confrontar Crivella e a Record. Agora, a Globo terá de aturar um prefeito eleito pela sua rival na cidade em que mantém a sua sede.

E a guerra intensifica-se. No programa “Fala que eu te escuto” (1º/11), a Igreja Universal atacou a imprensa, dizendo que seu candidato foi alvo de “intensa campanha negativa da mídia”. Entrevistado no programa, Crivella afirmou que “existe uma parte (da mídia) que não é imparcial e tem interesse no processo eleitoral”. Candidamente, esqueceu-se de incluir a Record entre os veículos parciais.

VENENO
Seria ingênuo imaginar que a Record foi a inventora do uso político dos meios de comunicação. Já entrou para a história, como exemplo de manipulação, a famosa edição que a Rede Globo fez do debate entre Lula e Collor, na disputa presidencial de de 1989. Esse foi o exemplo mais evidente, porém existem outros.

A Globo agora experimenta o próprio veneno – a emissora rival elege seu próprio candidato -, mas não penso que seja motivo de comemoração. Uma distorção não justifica outra. É necessário que se regulamente os meios de comunicação, de modo a ampliar a diversidade e estabelecer critérios para que as concessões sirvam ao interesse público e não sejam apenas instrumentos da vontade dos “donos” das emissoras de rádio e de televisão.

CONFISSÃO RELIGIOSA
É equivocado entregar uma concessão de emissora de rádio ou TV a uma confissão religiosa; se isso fosse razoável, também o seria entregar a um partido político (apesar de muitos políticos também serem donos de TV, o que é outra temeridade). O fato é que é preciso pôr ordem na casa. Seria bom para todo mundo, inclusive para as emissoras de rádio e televisão que existem para cumprir o propósito estabelecido na Constituição: oferecer uma programação educativa, artística, cultural e informativa.

SONEGÔMETRO
O governo federal arrecadou R$ 51 bilhões com a repatriação de R$ 170 bilhões de dinheiro amoitado no exterior por sonegadores. Agora, o presidente do Senado, Renan Calheiros, com a concordância do presidente Michel Temer, vai propor um novo projeto para trazer mais recursos.

LEGAL OU ILEGAL?
Teoricamente o governo aceita a repatriação somente de dinheiro que não é fruto de crime, apesar de somente o fato de ter saído do Brasil ilegalmente já configura delito. Mas quem garante que não há crime maior do que a “inocente” sonegação? No sufoco, o governo está vendendo a alma ao diabo para conseguir recursos.

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