Plínio Bortolotti

O que nos diz a invasão da Câmara dos Deputados

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Reprodução da coluna “Política”*, edição de 17/11/2016 do O POVO.

O que nos diz a invasão da Câmara dos Deputados

O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), relator do projeto que reúne propostas de combate à corrupção, retirou de seu parecer proposta que incluía juízes e integrantes do Ministério Público entre as autoridades que poderiam responder por crime de responsabilidade. Depois de se reunir com o procurador Deltan Dellagnol (Operação Lava Jato) e outros representantes do Ministério Público, Lorenzoni afirmou ser “inoportuno” debater a questão “neste momento”.

JUÍZES E PROCURADORES
É um tanto inadequado o procurador Dellagnol – um combatente contra a corrupção – atuar para preservar a sua categoria de responder por possíveis irregularidades. Ou eles estão livres de todo o mal? Se até um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) pode responder por crime de responsabilidade e sofrer impeachment, por que um juiz ou um procurador exigem tratamento diferenciado? Não são eles a dizer que “ninguém está acima da lei”? Em uma democracia, todas as instituições têm de aceitar os pesos e contrapesos para que uma não se sobreponha a outra – e nem o poder suba à cabeça de seus integrantes.

SALVADORES DA PÁTRIA
Se não for assim, se algumas instituições e pessoas vestirem o manto de salvadores da pátria – imaculados e incontestes – talvez tenhamos mais gente invadindo a Câmara Federal, como aconteceu ontem. Os manifestantes pediram a volta da ditadura, exigiram que não se faça nenhuma mudança no projeto das “10 medidas contra a corrupção” e pediram uma “escola sem partido”. Também gritaram “vivas” ao juiz Sérgio Moro. (No mínimo, para demonstrar apreço à democracia, Moro deveria desautorizar, ou repudiar, o uso de seu nome em manifestações ditatoriais.)

Segundo o portal Congresso em Foco, as propostas dos dos invasores coincidem com a pauta dos partidos de direita e da bancada evangélica. Havia também reivindicações defendidas por outras correntes de ideológicas, como o fim das aposentadorias dos congressistas.

LAVA JATO
A Operação Lava Jato fez um grande bem ao Brasil. Como diria um ex-presidente, nunca antes na história desse país, os poderosos haviam sido levados com seriedade às barras dos tribunais, e nem frequentado cadeias. Reconhecer os méritos da Lava Jato é um dever, permitir-lhe tudo é um perigo.

A PROPÓSITO 1
Na coluna de 8/11 transcrevi o que ouvira enquanto esperava na fila. Um barbeiro diz ao outro: “É preciso juntar pelo menos três mil pessoas e invadir aquele negócio (a Câmara)” para dar uma lição nos deputados. Aconteceu, eram apenas cem, felizmente os deputados saíram ilesos, mas é grave.

A PROPÓSITO 2
Antes que cobrem por que escrevi favoravelmente à ocupação das universidades e nomeio de invasão o que aconteceu Câmara: são coisas diferentes. Os poderes da República, símbolos da democracia, têm de ser preservados de ações desse tipo. Criticaria qualquer fosse o grupo a fazê-lo. (E, no caso, mais ainda, pois os manifestantes querem o fim da democracia).

SELVAGERIA
Foi selvageria o que os manifestantes que protestavam em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro fizeram com dois jornalistas da Rede Globo. Guilherme Ramalho foi agredido a socos e pontapés, conseguiu escapar da turba, mas perdeu os óculos. Caco Barcellos foi ameaçado e expulso do local, com os manifestantes atirando-lhe desde garrafas de plástico até cones de sinalização viária. De novo, não interessa que grupo faz isso, se de esquerda ou de direita: é injustificável.

*Em substituição ao titular Érico Firmo, que está de férias.

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