Plínio Bortolotti

O caso do edifício que derrubou um ministro

Reprodução da coluna “Política”*, edição de 26/11/2016 do O POVO.

O caso do edifício que derrubou um ministro

“Vou deixar o cargo por isso? Pelo amor de Deus”. Pois caiu Geddel Vieira Lima, o “homem de confiança” do presidente Michel Temer, pelo que ele entendia ser, no máximo, um simples pecado venial, uma ação entre amigos do andar de cima.

SÓ LEMBRANDO
Na coluna de 22/11/2016, escrevi o seguinte “Se (Temer) tirar Geddel, é a confissão que um de seus principais auxiliares cometeu irregularidades; mantendo-o, o problema permanecerá na antessala. Geddel diz que não pede para sair e Temer diz que não vai demiti-lo. Porém, em casos assim, o afastamento sempre é precedido de negativas”.

PONDERAÇÕES
Geddel saiu – mas não por vontade própria – deve ter experimentado o mesmo tipo de pressão que fez para “enquadrar” o ministro demissionário da Cultura, Marcelo Calero. Afinal, em sua aventura para conseguir benesses, o voraz Geddel mobilizou outros ministros e o próprio presidente da República. Eles fizeram de tudo para ajudá-lo, mas quanto a coisa ficou na casa do sem jeito, seus bons companheiros devem ter feito “ponderações” para que ele se afastasse para não atingir (mais ainda) o governo.

13 OU 30?
Como se sabe, Geddel quis dar uma pedalada para aumentar o gabarito (de 13 para trinta andares) em um edifício em Salvador, em área de tombamento, para atender a interesses dele e de parentes, que têm apartamentos no prédio.

CULPA NO CARTÓRIO
Se Temer não tomou antes a atitude de afastar Geddel é porque, sabe-se agora, ele também tem alguma culpa no cartório. Segundo depoimento de Calero à Polícia Federal, Temer lhe pediu que “construísse uma saída” para Geddel, enviando o processo para a Advocacia Geral da União (AGU), pois a ministra Grace Mendonça “teria uma solução”.

Segundo Calero, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, também o procurou, com a mesma conversa, para que “tentasse construir uma saída com a AGU”.

A CABEÇA
Calero ainda narra “a mais contundente” das ligações de Geddel. Foi quando ouviu do secretário de Governo que ele “não gostaria de ser surpreendido” com qualquer decisão que fosse contra os interesses dele. Disse ainda que era preciso “enquadrar” a presidente do Iphan, ou iria “pedir a cabeça dela”.

CRIME DE RESPONSABILIDADE
Vamos supor, por um momento, que todo o dito pelos representantes do governo seja verdade: que não houve pressão; que o presidente quis apenas mediar um atrito entre ministros, etc. Mas, por favor, alguém explique ao distinto público contribuinte. Por que cargas d’água, um governo com dezenas problemas graves para resolver – e que vai impor medidas duras, apertando a vida de tanta gente – mobiliza o próprio presidente da República e três ministros (Padilha, Grace Mendonça e Calero) para resolver o problema particular do secretário de Governo, o Geddel?

Em que tipificação deveriam ser “enquadrados” os ministros e o presidente, que usaram cargos públicos para defender interesses privados: desvio de função, tráfico de influência, crime de responsabilidade?

DEVE TER MAIS
O edifício em questão é o La Vue Ladeira da Barra, da construtora Cosbat. E tem mais: os representantes legais do prédio são parentes de Geddel. “Siga o dinheiro”, diria o Garganta Profunda. “Sigam a obra”, digo eu.

PARÊNTESE
Por diversas vezes escrevi que Michel Temer governaria sob absoluta instabilidade, muito distante da imagem de um governo de “pacificação” e “honesto”, que se seguiria à queda da presidente Dilma Rousseff. Não quero posar de grande analista político e muito menos de Irmã Jurema.

Mas o quadro era por demais evidente para não ser visto. Só não o admitiam os muito tolos ou os muitos espertos. Os espertos estão se dando bem – por enquanto – aos tolos, talvez reste bater panela, mas nem isso.

*Em substituição ao titular, Érico Firmo, que está de férias.

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